À Margem dos Dias
J.-B. Pontalis
Não datem esses fragmentos. Para mim, eles existem nas margens do tempo que passa, fora da cadeia do tempo. Mesmo quando evocam uma circunstância, um encontro, uma leitura do passado, essas circunstâncias, encontros e leituras são o meu presente.
Trago esses fragmentos das margens da minha memória, ela própria fragmentada e incompleta, não para o centro — ninguém tem um centro dentro de si, ou pelo menos esse centro esquivo nunca ocupa o mesmo lugar — mas para que possam vir à luz do presente vivo.
Não recuso as teorias. Prefiro navegar nas suas margens.
J.-B. Pontalis
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Excerto
Le Clézio, ao prefaciar em 1967 Les Chants de Maldoror, nota: “Maldoror, símbolo da rebelião contra a ordem estabelecida, do grito contra a linguagem-prisão”, e acrescenta: “Mas que outra coisa senão o poema de um principiante, a dissertação desleixada de um aluno do secundário pouco original”.
Mostra-nos assim, carregando um pouco as tintas, uma contradição que muitos outros encontraram, nem sempre dela se dando conta: a revolta contra a “linguagem-prisão”, as suas regras, a sua sintaxe, a ordem que implica pode ter como efeito reforçar a retórica. Ao ler a bela prosa de Breton, ouço Bossuet.
Como, quando se recusa a tirania da linguagem, não a glorificar? Yves Bonnefoy, que admiro e que mais do que qualquer outro procura uma presença que a enfermidade essencial das palavras não permite atingir, pois bem, nem sempre escapa ele mesmo a certa solenidade oratória.
Daí em mim, o desejo, sem dúvida absurdo, de uma escrita sem ornamentos, de uma escrita pobre. […]
Nota de leitura

