À Margem das Noites
J.-B. Pontalis
Aqui encontramos aquilo a que Victor Hugo, em Choses Vues, chamou “acontecimentos da noite”: sonhos que trazem os amigos falecidos de volta à vida, encontros que, mesmo que ocorram durante o dia, têm algo de invulgar, momentos de estranheza inquietante onde a nossa identidade vacila, ou aqueles momentos em que nos perguntamos: “O que faço eu aqui?”
A presença da morte iminente anda de mãos dadas com a atracção pela vida, com a curiosidade incansável que impulsiona a criança ansiosa por explorar o que a rodeia. A esta criança dou um nome: Alice.
J.-B. Pontalis
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Excerto
Alice e Norbert
Restam-me do sonho desta noite duas imagens opostas. A da pequena Alice, a pronunciar as suas primeiras palavras — na realidade, ainda está longe disso — e é a mim que as dirige.
A outra imagem é a de Norbert. Sabe que vai morrer dentro de dois dias e esses dois dias é na minha companhia que os quer passar. Pede-me para mandar lavar o meu carro.
Carro lavado de toda mácula, de toda a culpa. Carro impecável, limpo das auto-censuras que me endereço por não ter estado suficientemente perto dele quando ele estava a morrer no hospital.
Norbert, conversarmos, rirmos juntos dos outros e de nós mesmos, discutirmos, não, acabou-se. Portanto sonho muitas vezes com ele, uma maneira de lhe e me provar que a comunicação continua.
Alice, nascimento da linguagem. Ela fala-me. Eu escrevo-lhe dedicando-lhe este livro.
Nota de leitura

