A Luz das Trevas. Poemas e canções
Bertolt Brecht
Selecção, tradução e introdução de João Barrento
edição bilingue (alemão – português)
Esta é uma antologia pessoal, acidental e intencional, que espelha a minha relação com a Obra de Brecht desde os anos sessenta do século passado, essencialmente através do teatro, visto e lido, e das solicitações que a partir de certa altura me iam chegando para traduzir canções e poemas seus, que integravam as peças encenadas ou acompanhavam os respectivos programas. Mas o impulso para a tradução dos poemas foi também nascendo no contexto de aulas, ateliers de tradução de poesia, recitais (por exemplo de Jorge Palma), ou da edição de grandes antologias de poesia alemã do século XX.
E aí Brecht ocupou sempre um lugar de destaque como grande espelho do processo histórico desse seu, e meu, «século de todos os desastres». Esta selecção representa a tentativa de organizar (com muitas traduções feitas agora) essa iluminação brechtiana das trevas dos tempos, das «canseiras das montanhas e das planícies», a partir de uma poesia que nunca abdicou da sua vocação intrinsecamente interventiva. [J.B.]
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Excerto
Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.
Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos,
Atravessámos as guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.
E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.
Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.
(de AOS QUE VIRÃO A NASCER, III)
Nota de leitura

