Um Estranho Corpo Dá ao Palco, seguido de Pé Direito
Fernando Mora Ramos
O palco é o que liga os dois textos aqui coligidos, o palco entendido enquanto cena, ou seja, espaço de possíveis. Quem escreve Um estranho corpo dá ao palco e Pé direito, dois textos distintos na forma, mas com óbvias conexões temáticas, tem mais de meio século de relação com o(s) palco(s), seja como actor, encenador ou autor. O primeiro texto já foi levado à cena, resultado de um processo de escrita em relação directa com os corpos encenados. Não é coincidência que a cena dessa experiência levada a cabo em 2026 tenha sido a do espaço reflectido, glosado, satirizado até, no texto subsequente. Pé direito remete–nos não exclusivamente, mas sobretudo, para a Sala Estúdio inventada pelo Teatro da Rainha, no início deste século, num edifício que era para ser escola. Tudo está certo, o teatro é uma escola.
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Excerto
Acções sob um tecto de betão ameaçador acerca das inquietações de um espírito cénico mal abrigado.
Um pé em teatro é alguém que se move como tendo um pau de vassoura cu acima, toque a candeeiro de pé alto animado e como no circo aos sacões, corda dada a um ser hirto que entoa emoções, boneco desengonçado, mas declarativo: o pé é declamador e o declamador é poseur.
Em síntese: um cabotino sem o talento que o cabotino por vezes evidencia, o de actor exterior que Brecht lia por vezes como talento específico do efeito de estranhamento.
Nota de leitura

