Nova arte de conceitos. Contos

Luís Miguel Rosa

Seguindo um poeta muçulmano na Reconquista ou a desrazão na actualidade, estes contos ora contam ora cantam, em vários estilos onde o barroquismo e o registo mais chunga se alternam numa odisseia pela Língua Portuguesa.

Excerto

Araci ofereceu-nos um amanhecer pacífico, vencida a procela de ontem. Do arrebol auroral transborda calmaria garbosa: não mais nuvarrões, senão luz como a que sobe pelas colinas de Lisboa dourando-a como um dourador embeleza uma capa de livro. Ontem, da vigia do camarote, observava as vagas sovando o navio, receando que desconjuntasse a quilha uma oscilação mais forte, mas o costado prevaleceu como uma carapaça de tatu. Mais firme hoje, a aguagem já não faz o galeão Santo António adernar. Depois de uma noite a caturrar, agora desliza direito como uma folha pelo caudal de uma paraíba.

Nota de leitura

Estes contos fazem da linguagem uma festa. Diríamos mesmo: uma orgia. O que eles fazem com um deleite escandaloso é babelizar, levar a língua ao estado de Babel. É certo que conseguimos apreender em cada conto o quadro geral da acção e das respectivas personagens. E até temos uma enorme diversidade: desde o conto que se passa na Idade Média, em que a personagem principal é um poeta muçulmano (o que dá lugar a uma multiplicação de referências eruditas à literatura e à cultura árabes da época), até um diálogo delirante, entre um jovem que está à espera do metro e um linguista, em que o jargon suburbano dos adolescentes se torna quase uma peça musical. (…) No seu exagero extravagante e no seu delírio formalista, estes contos fazem-nos ver, por contraste, o contexto de onde eles emergem. Esse contexto, que é o da ficção portuguesa actual, é dominado por uma literatura narrativa muito bem comportada, por um puritanismo do conteúdo. Neste contos, pelo contrário, o leitor é completamente dissuadido de procurar saber “sobre” o que escreve o escritor, é convidado a não procurar um mundo por trás da linguagem, já que tudo surge ensombrado pelo artifício totalitário do estilo e pelos efeitos da linguagem. (…).

António Guerreiro, 16 de Março de 2018, Suplemento Y do jornal Público (4 *)

 

(…) uma colectânea que é, toda ela, um jogo de ironia, por duas vezes absorvendo a própria narrativa. “Micro-conto” é uma delas, com uma deliciosa explicação sobre o dito na página anterior ao texto, abaixo do título Lição II, explicação garantida pela epígrafe respectiva de Francisco Rodrigues Lobo. A explicação e a epígrafe são o que vale, pois não há micro-conto nenhum, apenas um diálogo ao acaso de duas linhas entre um casal, ele num português do Brasil de favela, ela em inglês, impresso na página 53 como que por engano, sem qualquer ligação ao título, mas atado com um nó cego à epígrafe respectiva. O outro conto, que também não o é, cuja narrativa se absorve no jogo simultaneamente lúdico e irónico que percorre o livro, é “Neologíase”, neologismo que LMR pode ter formado de  neo + log(ia) + íase, que significaria  novo estudo sobre a condição mórbida. Condição mórbida de quê ou de quem? Da Língua. Começa assim o que é a Lição III: «Talvez nunca conheçamos a origem da praga.» Esta lição é verdadeiramente abundante em neologismos, todos eles riscados, uns criados com ironia e gozo pessoal, outros deixando a frase por acabar, em virtude da sua simples rejeição com um traço por cima, sem olhar ao que se seguiria. (…).

Nuno Dempster, Blogue Esquerda da Vírgula, Setembro de 2017

 

(…) Um livro que tem algo de ‘faça-você-mesmo’, ou de manifesto, e, no limite, de ajuste de contas com esta insípida e descolorida contemporaneidade que nos calhou… Afinal, foi exactamente isso que fez, há 300 anos, esse padre Leitão Ferreira, o dessa primeira Nova Arte de Conceitos.
E é bom surgirem, de vez em quando, estes jovens turcos, estes arrebatadores do Céu, remexendo as águas literárias, propondo novas e frescas formas de escrita e de expressão.
Estes contos do Luís Miguel Rosa são, um por um, encimados por uma citação de Corte na Aldeia, um curiosíssimo livro de Francisco Rodrigues Lobo, de 1619. Aí passam em revista, e se debatem, os interesses intelectuais, e mais exactamente as preocupações linguísticas, da nobreza portuguesa, residente em Portugal, sob a monarquia filipina. Essas citações de Corte na Aldeia preparam o tema do conto, mas não raro o fazem criticamente, funcionando então como contraponto, como anotação irónica. Seja exemplo esta passagem: «Com uma só razão condenara eu toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e é que não falam para que os entendam melhor, senão para que pasmem daquela sua estranha eloquência e galantaria». Ou esta outra passagem: «Essa culpa é dos mancebos que, como no praticar não têm a madureza que só costuma ensinar a experiência, cuidam que se melhoram em falar escuro e elegante, fazendo na prosa acentos de música e medidas de poesia». Ora, constatamos nós, se Luís Miguel Rosa alguma coisa intenta elaborar na sua prosa, é isso mesmo: «acentos de música» e «medidas de poesia».
Todas estas referências seiscentistas e setecentistas que percorrem o livro poderiam parecer simples exibicionismo erudito, mais ou menos especioso, mais ou menos adequado. Ora, não é o caso aqui. (…).

Fernando Venâncio — Apresentação do livro. Festa do Livro em Belém, 21 de Setembro de 2017

 

 

 

 

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8592-28-6

Dimensões: 14x22cm

Nº páginas: 184

Ano: 2017 | Setembro

Nº Edição: 112

colecção azulcobalto | ficções 044

Género: Ficção | Contos

PVP: 14

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