Mau Tempo no Canal
Vitorino Nemésio
O grande escritor açoriano José Martins Garcia considerou Mau Tempo no Canal (1944) “a síntese de todas a ficções de Nemésio e o remate de toda a idiossincrasia açoriana”. E David Mourão-Ferreira considerou o romance de Nemésio a obra “mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária”.
Mau Tempo no Canal é um ícone dos Açores e da sua literatura – pela sua excelência formal e pelo contexto social, geográfico e cultural (o “canal” é o braço de mar que separa as ilhas do Faial, do Pico e de S. Jorge).
Mau Tempo no Canal tem como editor o poeta e crítico Urbano Bettencourt. É o 9.º volume da Obra Completa de Vitorino Nemésio (direcção literária de Luiz Fagundes Duarte), que a Companhia das Ilhas publica desde 2018 em parceria com a Imprensa Nacional.
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Excerto
[…] — Baleia à vista! Baleia à vista!…
— Blós! Blós!
— Ah, Mariquinhas!, viste o meu home?…
Não havia dúvida: era o sinal de há um século, o bombão do vigia e a fogueira do Pico do Calado. O varadoiro não tardaria negro de gente — o pacato mas decidido povinho da Areia Larga a São Mateus, simples ramo das três cordinhas de povos que abraçam o Pico à roda, como a Judeia, a Galileia e a Samaria repartem as passadas nazarenas. Gente alentada, singela, de falas e gestos mansos, mas cega a tudo e a todos à voz de baleia! baleia! Em menos de um credo, viu-se passar o Tromba tocando a buzina. Um búzio, ao longe, urrava picado.
— Menina Bidinha, olhe… olhe!… Nã vê? Um espalmo… no indireito da Ponta de Jão Dias… pro largo?… — disse a mulher do Espadinha. […]
Nota de leitura

