As raparigas lá da minha rua
Manuel Tomás
A infância é uma brecha de tempo na rua da nossa memória. Na ilha, estamos prontos para atravessar o Canal para qualquer lado, para que fiquemos sempre presos a essa linha de água traçada no mar e que se apaga logo, mas fica sempre viva. Romance, um ou outro conto, alguma crónica, talvez um pouco disso ou outra coisa, aqui há realidade e ficção, porque a imaginação é soberana e livre para fazer o caminho. Recordar é viver outra vez e a escrita literária leva a ficção a contar a verdade quer esta seja quer não seja. Ainda há algum erotismo, como queria Umberto Eco.
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Excerto
A infância é uma brecha de tempo na rua da nossa memória. São os cheiros da terra lavrada em Março e dos milheirais que já não existem a rivalizar com os odores das vindimas, quando ouvíamos o vinho doce a escorrer dos balseiros, e íamos dando à manivela aos moinhos em cima dos carros de bois, parados no caminho, à porta da loja, e bebíamos um líquido de esperança para uma vida ainda a prometer, antes do sufocante cheiro inebriante das borras do alambique, antes, antes de quase todos termos emigrado para as Américas ou para outras ilhas e para o continente.
Na ilha, somos sempre véspera de embarque, como nos disse o poeta José Martins Garcia, ali da Criação Velha, e moramos no cimo de uma escaleira pronta para nos introduzir na lancha que há-de atravessar o Canal para qualquer lado e para que fiquemos sempre presos a essa linha de água traçada no mar e que se apaga logo, mas fica sempre viva e ligada na lembrança e na vontade de um dia regressar.
Nota de leitura

