Debaixo do Azul sobre o Vulcão
José Agostinho Baptista
Reedição, revista, reescrita, com Nota introdutória de Enrique Vila-Matas.
«Conheci-o em Lisboa. Como se dedica à tradução, Hermínio Monteiro − meu amigo e editor português − pensou em José Agostinho para trasladar à língua de Pessoa o meu romance Longe de Veracruz. Logo averiguei por que tinha pensado nele para essa tradução. Fomos a um bar mexicano de Lisboa e José Agostinho demonstrou um mais que amplo conhecimento das letras de todas as canções mexicanas do local. Falou-me de Veracruz, de Cuernavaca, de Guadalajara, emocionou-se ao evocar Guanajuato, chorou ao recordar María Félix e citou-me parágrafos inteiros de Pedro Páramo.
No fim da noitada fomos a sua casa, toda decorada com motivos mexicanos. Nunca vi no México uma casa tão mexicana como a que José Agostinho Baptista tem em Lisboa. Ouvimos Chavela Vargas, bebendo tranquilamente tequila, recitou-me de cor poemas de Octavio Paz e de José Gorostiza. Quando abandonei a sua casa, ofereceu-me um exemplar do seu último livro: Debaixo do azul sobre o vulcão, um conjunto de textos sobre a experiência de ter viajado incansavelmente pelo México.
Na manhã seguinte, disse-me Hermínio Monteiro que o poeta José Agostinho Baptista nunca tinha estado no México. Sempre que penso nesta estranha personagem recordo-a como se fizesse parte de um poema de Octavio Paz de que tanto gosta e que diz assim: “… onde um homem curvado escreve arduamente, em mangas de camisa, entre pausas furiosas, estes adeuses à beira do precipício”.»
Valência, 17 de Agosto de 1997.
Fotografias de Miguel Ángel Regalado Aceves, Pedro Caldeira Rodrigues, Rubén Guillén Soto e Jhovani Iván Morales Espinosa.
Encomendas e venda directa – pedidos para: companhiadasilhas.lda@gmail.com
Excerto
Os rituais multiplicavam-se, alheios a qualquer pretexto.
Se la vida no vale nada, tudo valia um afecto, uma bênção, uma súplica, uma rosa desmedida.
E eu vi tudo até à dor. Vi o amor e o lume e as cinzas que havia no amor.
Frente a frente, a paixão e o ciúme combatiam sem tréguas.
O peito estremecia.
As facas soltavam-se, procurando obsessivamente o anoitecer e, no anoitecer, as suas ribeiras quentes e devoradoras, intransponíveis.
Caíam os amigos, cantando. Só quem ama pode acabar assim, cheio de um riso louco.
Nota de leitura

