Teatro (In)Completo. Volume V
Carlos J. Pessoa
O projeto editorial Teatro (In)Completo, iniciado em
2022, nasceu da necessidade de reunir, organizar e tornar acessível o vasto corpus dramatúrgico escrito e encenado por mim, no âmbito do Teatro da Garagem. A publicação em volumes sucessivos procurou não apenas preservar os textos, mas também oferecer ao leitor uma visão panorâmica de uma obra deliberadamente fragmentária, feita de permanências e de rasgões. Cada volume acrescenta um estrato a esse mosaico dramatúrgico, permitindo acompanhar a evolução estética, filosófica e política de uma escrita que se quis sempre em movimento. Importa neste momento fazer um balanço do que foi publicado até aqui, oferecendo um conjunto de pistas ao leitor para que possa acompanhar o percurso “garagiano”.
Este volume integra textos que se movimentam entre continuidade e transgressão, refletindo tensões do tempo histórico e do fazer teatral:
– A Deriva dos Fragmentos (sobre o amor)
– Adélia Z
– Tríptico TEC
– Os Donos dos Cães
– Paixão segundo o Meu Anjo
Encomendas e venda directa – pedidos para: companhiadasilhas.lda@gmail.com
Excerto
Cena: BANQUETE PARA DOIS
GASTRÓNOMO Espargos, dezenas e dezenas de espargos… (para público) É servido? Autênticos manjares, segundo critérios de grande exigência: azeitonas pretas, (apontando o balde que traz na mão) sardinhas ainda vivas! Lixo?… Remexer no lixo, recuperar fragmentos… Lembrar!… Sem jeito para nomes: nomes de ruas, nomes de pessoas, de coisas, etc. Sim, sim… não! (para público) Em cada um ver todos os convidados para o banquete. Em todos não ver ninguém. Todos presentes e ausentes. Se calhar já estão a dormir!… Será?! (ressona) Welcome, welcome!…
(entra o Golfinho)
(aponta uma grande parede branca, ou tela, no fundo da sala) Ponto de fuga! Espaço secreto!… Buraco de luz húmida na noite! (soam 12 badaladas) Oh, as majestáticas e decisivas doze badaladas! (para Golfinho) Tu, delfim, delicado e sensível mamífero aquático… my love!
Espargos para vossa senhoria?!
(Golfinho torna-se Sereia e canta…)
Carícias são roldanas, numa física do amor que elevava a cama até às nuvens e lá, nas nuvens: fadas, querubins, anedotas de pouca coisa, ginjas no teu ventre! Ah, welcome, welcome! (Sereia entrega-lhe carta) Uma carta, o que terá dentro?! Como os dias alcióneos…
(Sereia canta…)
SEREIA Uma canção desafinada. Bem-intencionada a canção e, no entanto, o mundo cheio disso… compreendes? Lálálá!…
(…)
Nota de leitura

