Este conjunto de textos tem uma origem, o PREC. É, à letra e no que ficciona, filtrado pelo tempo e pelo enviesado humor que pratica, mea culpa, matéria a circular por dentro, intersticial, de uma nova sociedade que se tenta diariamente, libertos do fascismo — o que fizemos não havia, foi necessário inventar, da profissão aos reportórios, as pessoas, da estrutura de acção aos compromissos com o poder emergente, a própria arte face ao desgaste de um momento que era história em aceleração exponencial, o ritmo das transformações radicais surpreendia os próprios sujeitos da transformação.

(…) O olhar que nos textos prevalece é o de muitos anos depois. Um olhar que o tempo filtrou e que converteu o que foi épico em algo pícaro e objectivo. Como se Cervantes tivesse ali também metido o seu carro de cómicos. Na realidade estes textos surgem porque nunca partiram, foram aparecendo à medida que um balanço nostálgico e futurante tomou a forma destes escritos que misturam tudo, creio, crónica do tempo, pura ficção com incursões num terra-a-terra que ganha corpo de metáfora, reflexão sobre o que o teatro possa ser, elogio dos fazedores e dos destinatários, crítica das estruturas de conformação, retrato da distância entre os do cimo e os de baixo.

F.M.R.

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