VIAGEM PELO BRASIL [1999-2000]

António Vieira

Diário de um escritor português.

 

Evocar emoções esquecidas suscita um novo estranhamento. Este Brasil rememorado, de há pouco mais de vinte anos, ressurge-me a partir de fragmentos, janelas estreitas abertas sobre um tempo volvido, por onde voltam sensações antigas — ir pela memória é como seguir pelo chão da floresta: na obscuridade pulsam manchas cintilantes, a distância imprecisa, que a penumbra envolve e julgamos ver e decifrar pontos vivos por entre um vasto mundo oculto.

 

Venda directa: desconto de 10% (preço com desconto: 15.30€), portes gratuitos em correio simples; em correio registado (aconselhável): acresce 1,75€ (encomendas para o e-mail: companhiadasilhas.lda@gmail.com).

Excerto

Há que caminhar sem fazer ruído. Do alto vêm sons de aves, que parecem sopros em tubos sonoros de várias espessuras, tocados com mestria; os ruídos dos anfíbios são como roncos saídos da terra; os dos insectos espalham crepitações ásperas; restolhos no chão florestal indicam porventura a fuga de algum réptil cuja imagem se furta ao nosso olhar.
Paramos, atentos ao canto antifonal de aves invisíveis: uma delas vocaliza de um lugar incerto; passam uns segundos e o parceiro responde de longe, em parada de corte. Fixamos o ponto exacto de onde provém o som — mas como encontrar o cantor, perdido na densidade, no emaranhamento de tons verdes? Martinho sussurra-nos a história de um pássaro de plumagem verde que canta entre a folhagem e nunca ninguém viu!
As histórias da floresta, de tão prodigiosas, são da matéria já das fábulas e mitos. E recordamo-nos da lenda da pequena ave da floresta, suposta invisível mas de canto inefável, que inspirou Villa-Lobos na sua obra O Uirapuru, que tira o seu nome de um pássaro canoro bem real (Cyphorhinus aradus).
Qualquer atenção concedida a uma parte do todo florestal revela formas insuspeitadas de seres vivos: em frestas de madeira apodrecida proliferam pequenos cogumelos, inclinando a uníssono os seus pés delicados; num sulco do alburno de uma sumaumeira (Ceiba pentandra), aranhas tecem teias onde se prendem moscas; procurando na escala logo abaixo, miríades de insectos minúsculos correm sobre folhas e lianas. E se olhássemos com lupa, e depois com microscópio, desvendaríamos novas e sucessivas camadas de viventes.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-9007-45-1

Dimensões: 13×18cm

Nº páginas: 220

Ano: 2021| Junho

Nº Edição: 227

Colecção: mundos | segunda série #002

Género: Textos e viagem

PVP: 17 €

Autor