Nunca direi quem sou
Vergílio Alberto Vieira
À margem do discurso narrativo que, em regra, transforma os livros e quem os escreve em figuras de retórica, poder-se-á dizer que este conjunto de ficções não apenas dá voz a personagens tão diversas como Chuang-tsu, Sapho, Borges, Cesariny ou Herberto Helder, como as resgata da galeria de sombras que a obra iluminou. Quem poderá saber quem foram, se nem os próprios o disseram?
Excerto
A língua é quase sempre a primeira a despraiar a verve, arrolada no areal sedento onde a cianose dos náufragos recolhe os destroços do que, horas depois, surpreenderá quem vier fazer de estátua à volta da manchete, no quiosque da praça, em banca de rua improvisada, cartaz vandalizado, ou bar soturno a que se acolhem solidões de bairro desoperário.
Às quartas, a preia-mar devolve à ilha os que a peregrinação levara fazendo escala noutros portos, solitários marinheiros que a deriva não mais trouxe a terreiro, desde o último equinócio, ou antecedendo o solstício de verão, que as quartas, tanto podiam ser segunda, ou até sexta, e navegar sem mestre não é aviso à navegação de bebedor nocturno, nem ofício de rebocador acostumado a manobras de doca seca; acostagem é arte de versado, comporta risco; e a atracção, perícia, em cais-de-sodrés onde o venéreo mal cedo engulha, e a cirrose a seu tempo mata.
[de: “O ÚLTIMO ACAMPAMENTO DO NÓMADA”]
Nota de leitura