Meteorologia. Contos para adultos que não quiseram ser grandes

Mário T Cabral

De que «meteorologia» se fala aqui? A questão ganha pertinência se pensarmos num contexto insular em que, durante certo tempo, os factores atmosféricos, climáticos, adquiriram no interior da reflexão literária e cultural algum papel de relevo.

Neste particular, os contos de Mário T Cabral oscilam entre a referência explícita e a alusão tangencial que, no seu nível de conhecimento, um leitor de proximidade será capaz, ainda assim, de descodificar. Trata-se, por norma, de uma indicação pontual, sem grandes expansões descritivas, deixando ao leitor a possibilidade de lançar mão da informação empírica à disposição no seu “arquivo” pessoal – ou ainda, num outro plano, constituem os lugares de um território ficcional em que as personagens se movimentam e interagem, por vezes em situação conflituosa. Mais do que ater-se demoradamente aos traços físicos de um determinado espaço, sem a cedência à “tentação” paisagística e etnográfica, o escritor opta pela apresentação de personagens e de situações que no seu desenvolvimento configuram um jogo de experiências colectivas ou individuais e um quadro de relações interpessoais que remetem em último lugar para diferentes facetas de uma condição social.

Ora, é preferencialmente sobre espaço açoriano que se recortam as personagens de Cabral. Enquadradas por situações comuns, elas movimentam-se em histórias de um quotidiano comezinho, embora complexo e diversificado, sem heroísmos nem sobressaltos, pautado pela mediania que as vidas miúdas arrastam com elas, e em que diversos caminhos desembocam na religiosidade e nos seus rituais e expressões.

Urbano Bettencourt, do “Prefácio”

Venda directa – pedidos para: companhiadasilhas.lda@gmail.com 

Excerto

Ainda tens fome?! disse o rapaz magro da barbicha rala cheio de espinhas: Home não comas mais!
O rapaz gordo do boné ao contrário dava grandes dentadas num cacete recheado de molhos que esguichavam para o saco de papel. Disse qualquer coisa, contrafeito, mas não se entendeu, por ter a boca cheia. Usava calças descaídas que, somadas às fartas coxas, atrasavam ainda mais a marcha, provocando um frufru de romance do século xix.
— Home pára, senão não sobra nada. Põe neste aqui.
Referia-se a um balde de lixo debaixo de uma das palmeiras no lado da praça que dava para as traseiras da igreja, a meio caminho entre a pizzaria e o liceu. O rapaz gordo de boné ao contrário limpou a boca suja com o saco de papel meio, e depois atirou-o fora, com raiva.
Isto foi no intervalo do almoço, quando a praça está repleta de alunos que namoram, riem, berram palavrões, jogam à bola ou fazem acrobacias ora com skate, ora com bicicleta. […]

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-9154-06-3

Dimensões: 14x22cm

Nº páginas: 218

Data: 2023| Julho

Género: Ficção narrativa

Edição: # 297

Colecção: Obras de Mário T Cabral #005

PVP: 16,50€

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