Marta de Jesus (a verdadeira)

Álamo Oliveira

Marta de Jesus (A Verdadeira) é um romance que se constitui sobre a narrativa bíblica do Novo Testamento. A epígrafe extraída do evangelho de Lucas assinala o comportamento e o perfil antitéticos das irmãs de Lázaro, Maria e Marta. Transpondo para o universo desta Marta o núcleo duro de seguidores do Emanuel bíblico (a mãe Maria Nazaré, Maria Madalena, o grupo dos discípulos), recontextualizando-os temporalmente a partir de meados do século XX (mas prolongando-os até à década de 90) e situando-os no espaço mais ocidental da Europa, a ilha das Flores, Álamo Oliveira constrói um romance cuja leitura obriga a um vaivém recorrente entre o explícito, contemporâneo, do primeiro plano e o implícito, remoto, do segundo plano (isto é, o subtexto evangélico), desafiando o leitor e jogando com as expectativas decorrentes do seu maior ou menor conhecimento bíblico.

O leitor terá, pois, ocasião de atestar a convocação de episódios bíblicos no interior deste romance, de verificar em que medida ela se realiza enquanto repetição e diferença (como é próprio de procedimentos narrativos e textuais do género) e como essas diferenças podem constituir, finalmente, um factor de frustração das expectativas do mesmo leitor. Na realidade, transpondo para a segunda metade do século XX açoriano e português alguns episódios bíblicos, entre eles o projecto messiânico de salvação política do país, o autor condena-os desde logo ao fracasso: porque esta não é uma narrativa tocada pela visão e pela perspectiva do milagre e porque a verdade histórica se opõe a uma libertação situada nesse período de tempo.

 

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Excerto

Naquele tempo, Marta de Jesus pressentiu a morte como quem sabe o prazo de entrega de uma encomenda por correio expresso: chega no dia exacto e é entregue à porta. Por isso, antes de se deitar, lavou-se com os cuidados de uma última vez e pulverizou-se com água de colónia vinda da América. Gemeu para obrigar os seios a caberem nos copos do sutiã; vestiu cuecas com as perneiras bordadas a matiz e uma combinação a condizer; calçou meias fio-de-vidro e um par de sapatos de verniz de cor preta. Depois, meteu-se dentro de um vestido de crepe georgette, de corte esquecido da «belle-époque», mas composto, e, por cima, o seu único casaco a meia perna, também de cor preta. Deitou-se de barriga para o ar na sua cama de pinho resinoso e ficou à espera do sono da morte e de alguém que a encontrasse nesse estado, incluindo Deus, em quem sempre acreditou até por influência onomástica. Era Dia de Reis do ano de 2001 e toda a manhã choveu naquela ilha das Flores, assim chamada pela quantidade que delas havia e pela sua congénita formosura. Marta de Jesus, por sua vez, tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura e cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só. Porém, se alguém lhe perguntasse se valera a pena viver, ela responderia com o maior dos sorrisos: «Não conheço outra vida.
E esta chega-me.»

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-9007-16-1

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 228

Ano: 2020| Setembro

Nº Edição: 204

Colecção: Obras de Álamo Oliveira # 008

Género: Ficção | Romance

PVP: 16€

Autor