folha #009

Insistimos: fazemos livros — não confundir com guiões para telenovelas.

O GAJO

Alguém indagou: que é feito desse gajo? Ficámos a olhar uns para os outros, nunca mais ninguém viu o gajo.

Há tempos deixaram um comentário num texto que se lhe referia, comentário nostálgico, género pompa fúnebre. Terá morrido? Especula-se: as drogas deram cabo dele, enlouqueceu, fechou-se numa comunidade qualquer a desintoxicar corpo e alma, converteu-se à metafísica, era gajo para isso, emigrou, morreu, matou-se, encontraram-no com uma seringa espetada num braço, estendido num qualquer recanto a cheirar a mijo…

Prémio revelação, outro prémio não sei das quantas, dois, três livros publicados, o gajo foi colocado entre os melhores, os maiores. Era o novo Ramos Rosa, lembram-se? Aquilo deu cabo dele. A poesia pode dar cabo de um gajo. Se te levam a acreditar, então é pior que igreja. Mata mesmo sem salvação.

Todos se recordam da última vez que viram o gajo. Eu próprio recordo a última vez, a primeira e última vez. Fomos apresentados numa livraria desaparecida, tal como ele desapareceu. Há coisas que desaparecem sem deixar rastro. Olhámo-nos com indiferença, todo ele era indiferença e fastio pelo mundo em redor. E eu percebi nos olhos dele o que também já experimentara, vontade de anestesiar o corpo para distanciar a mente.

O gajo era fodido, alguém diz. Tinha mau feitio. Ninguém sabe o que isto quer dizer, ninguém sabe explicar o que pretende dizer quando atribui a alguém tão indefinível característica. Mau feitio. Se alguém resiste, tem mau feitio. Se alguém critica, tem mau feitio. Se alguém se opõe, tem mau feitio. Se alguém quer estar só, tem mau feitio. Porque contrapor, resistir, criticar são vícios tremendos onde estar só jamais foi solução. O homem é um ser aberto ao mundo, gregário, social, porra para a fenomenologia, o homem está em relação com, a solidão é coisa de monge, o monge está com Deus, em Deus, o monge é índio, o anacoreta nunca está só no seu deserto, tem sempre por companhia a sombra do senhor, porra para o misticismo.

Talvez o gajo fosse índio. Quem sabe?

Por vezes temos dificuldade em lembrar-lhe o nome, vamos por exclusão de partes, tentativa e erro, chegamos lá com dificuldade. Percebemos as limitações de um nome mediante a dificuldade que sentimos para chegar a ele. Ninguém se lembra de um verso sequer que tenha escrito, nem do título de um dos livros que deixou, um, dois, três, todos premiados. Poucos conseguem traçar-lhe uma característica do rosto. Eu só me lembro do aperto de mão lasso, dos olhos em fuga cavados em olheiras negras como breu, o fastio pelo mundo ao largo.

Que será feito do gajo? Certo é que desapareceu, nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele, evaporou-se, sumiu. Ou então, ao contrário de todos nós, vive. Sem aparecer, sem perder tempo onde todos aparecem, protegido das feridas que o social rasga no corpo e na mente, alheio ao mundo de aparições em que todos nós naufragámos, algures enfiado num covil ou rebolando-se como um animal selvagem em campo aberto. Nós domesticamos a dúvida perguntando pelo gajo. Talvez o gajo preserve a raiz selvagem do olhar não querendo saber de nós. 

Henrique Manuel Bento Fialho

Setembro-Dezembro:

Álamo Oliveira: Contos Contados.

Álamo Oliveira: Murmúrios com Vinho de Missa.

Carlos Alberto Machado: Hotel dos Inocentes.

Jean-Pierre Sarrazac: A Paixão do Jardineiro / Neo, Três Painéis de Apocalipse.

José Manuel Teixeira da Silva, texto, e Ana Abreu, ilustrações: Sombramar.

José Martins Garcia: Receitas para Fritar a Humanidade.

José Martins Garcia: Revolucionários e Querubins.

José Martins Garcia: Vitorino Nemésio. À Luz do Verbo.

Maria Graciete Besse: João de Melo. Entre a Memória e a Perda.

Miguel Falcão e Catarina Firmo (coord.): Marionetas e Formas Animadas: Teorias e Práticas.

Nuno Costa Santos: Morrer É não Ter nada nas Mãos.

Pedro Eiras: Museus.

Urbano Bettencourt: Com Navalhas e Navios.

Vasco Medeiros Rosa: Raul Brandão e os Açores.

Vitorino Nemésio: Poesia II (1950-1959).

Vitorino Nemésio: Sob os Signos de Agora / Conhecimento de Poesia.

Estamos vivos (mas vem por aí o furacão Lorenzo… falamos depois!)

Companhia das Ilhas

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