folha #006

Talvez um dia se faça uma lista de livros silenciados pelo jornalismo cultural e pela crítica literária no Portugal democrático. O nosso O Nome do Mundo 1969-2019, de José Amaro Dionísio (Junho de 2019) será um desses livros.

A POESIA ENQUANTO INUTENSÍLIO E FACA INCANDESCENTE:

algumas breves proposições, seguidas de referências a propósito

1. É a poesia quem mais sabe de poesia e, como explica um poeta, persiste pelo mais óbvio, porque se vive e porque se morre. A sua infinita utilidade não é contabilizável nem tem lucro que se apure, é esse modo de existir existindo propriamente, matéria de que tanto nos esquecemos. O mais é literatura, como, aliás, sugeriu um outro poeta. Manoel de Barros: “O poema é antes de tudo um inutensílio. (…) Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema / enquanto vida houver. // Ninguém é pai de um poema sem morrer.”1

2. Nos dias que correm, a poesia ocupa um lugar periférico – basta que constatemos o mais imediato, dispensando os elogios grandiloquentes que adornam os discursos oficiais. Eduardo Prado Coelho: “Mas posso dizer uma coisa: a colocação dos livros de poesia define a qualidade de uma livraria. Procure o leitor encontrar na livraria de um aeroporto o local dos livros de poesia: não existe.”2

3. Numa sociedade do espectáculo e de produção de conteúdos, editar poesia, essa excêntrica mercadoria feita de palavras em diálogo com o silêncio, afigura-se um negócio censurável e frívolo. Um outro poeta, João Luís Barreto Guimarães, ironiza: “Alguns editores têm até algum pudor em editar livros de poesia, não porque lhes pareça que os livros de poesia não vendem o suficiente para justificar a edição, não, nada disso, mas [porque] sentem verdadeiro pudor em propor uma coisa que só está escrita pela metade. Não se sentem bem em vender o silêncio, parece-me a mim, porque isso seria como, por exemplo, tentar vender o buraco do meio do pão-de-ló”.3

4. A poesia enquanto inutensílio terá o seu papel num mundo em que dominam a velocidade de comunicações alienadas, a desumanização e o conformismo, o papaguear e a conversa fiada, tudo a favor de pequenos e grandes poderes, e sempre em submissão aos negócios dominantes. Há sintomas. Num telefonema, era assim: “Quem fala? Está lá?”, isto é, a surpresa de encontrar improvavelmente alguém, algures, o prazer da função fática; agora talvez se prefira “onde estás?”, a comunicação compulsiva e o controlo. Rosa Maria Martelo, a propósito de algumas batalhas da poesia de hoje: “(…) a batalha contra uma aceleração que nos faz vítimas do compromisso impossível entre o desejo de excitação permanente e a vontade de recuperar do cansaço; a reivindicação da singularidade, em detrimento da massificação; o resgate de uma linguagem capaz de construir mundividências alternativas ao desvanecimento referencial produzido por um constante linguajar (…). A estas três ordens de tensões, a poesia responde contrapondo o tempo da escrita e da leitura, a singularização e a autenticidade, e ainda o rigor discursivo que lhe é próprio”.4

5. A poesia, enquanto liberdade livre (Rimbaud, Ramos Rosa), será, assim, faca incandescente entre palavras e mundo, numa vocação de resistência, que exerce, antes de mais, relativamente a si própria. Por exemplo, Inês Lourenço:

QUEBRA-LUZ

Desconfio dos poetas

que falam muito de luz, das

manhãs e das árvores

na sua obsessão hospedeira

de frutos aves e

folhas. Desconfio dos que cantam

lareiras e vozes mansas, tentando

apaziguar o poema com a sua

indústria de incensos. Eles

encenam como velhos profetas

tardias formas de beleza

extinta – e fazem do verso

um ritual nado-morto

de pequenos afectos,

indiferentes à faca

incandescente que separa

o corpo das palavras

da substância do mundo.5

1- In Arranjos para Assobi.

2- In A Razão do Azul, Quasi, 2004 (p. 33).

3- Da intervenção do poeta em Correntes d’Escritas (2012), citado no blogue Bibliotecário de Babel, 25/02/2012.

4- Do prefácio da ensaísta em Calma é Apenas um Pouco Tarde- Resistência na Poesia Portuguesa Contemporânea, Deriva, 2015, de Maria Leonor C. Figueiredo, aludindo à perspectiva apresentada pela autora na sua obra.

5- In O Segundo Olhar, Companhia das Ilhas, 2015.

José Manuel Teixeira da Silva

Em Junho e Julho fizemos sair para as livrarias dois livros de teatro: de Martin Crimp, o que reúne as peças Definitivamente as Bahamas e Play House – co-edição com o Teatro da Rainha, apresentação de Fernando Mora Ramos. De Gisela Cañamero, uma nova edição da sua peça Para Além do Muro, com versão alemã (Jenseits der Mauer) de Dorothée Leipoldt (a primeira edição, de 2015, integrava uma versão em inglês). Prefácio de António Sousa Ribeiro.

Ainda em Junho, o romance açoriano O Rapto, de Dimas Simas Lopes.

Em Julho, saiu, em segunda edição, a colectânea Call Center, de Henrique Manuel Bento Fialho. À primeira edição, de 2014, acrescentaram-se 10 novos contos: “Em Memória de Stephen Crane”, “Espelhos”, “Fábula da Vida de Cão”, “Gilberto”, “Homem do Machado”, “Impecável”, “Ménage à Trois”, “Nação Barata”, “Rodrigo” e “Telmo”.

Neste mês de banhos & churrascos, temos em tipografia mais um livro para depois das férias, um singular exemplar da nova ficção portuguesa: Uso Errado da Vida. O seu autor, Paulo Rodrigues Ferreira, nasceu em 1984, é doutorado em História Contemporânea e ensina Língua e Literatura Lusófona na Universidade da Carolina do Norte-Chapel Hill, nos Estados Unidos. Antes de se mudar para a Carolina do Norte, ensinou em Nova Iorque, no Queens College e no Bronx Community College. Foi dono de uma pequena livraria em Lisboa, a Fyodor Books, e co-editor do projecto literário Enfermaria 6 – no âmbito deste projecto publicou um livro de contos, Sonhos de Lobo (2014). Tem estado sempre ligado à escrita e à publicação de ficção. Participou em diversas antologias, publicou livros de contos e artigos em jornais (Observador, Público, Jornal de Letras). Tem também considerável publicação académica.

Inspirando-se no Orestes grego, que segundo o mito mata a mãe e seu amante, Paulo Rodrigues Ferreira dá neste livro vida a um Orestes contemporâneo que, entre acusações à progenitora e a tudo o que o rodeia, vai enumerando, capítulo a capítulo, as razões pelas quais se sente desenraizado, impossibilitado de levar uma existência normal, igual à de tantos outros homens banais que conheceu. Uso errado da vida é uma tentativa de reflexão sobre o passado, o presente e o futuro de alguém que não se adaptou à realidade, que não superou o trauma e que, ao mesmo tempo, deseja experimentar felicidade, paz de espírito e bem-estar.

Um excerto:

«A mamã emperiquitara-se na manicura, instalara mise em cima do crânio e botara vestido grená comprado a preço de saldo, sem dúvida que merecia melhores elogios do que os recebidos pelo noivo. Merecia mais do que ser chamada de presunto macio. Nenhuma mulher merecia, nem a mamã, nem ela merecia os rótulos de presunto e vaca. Orestes revoltava-se, era filho, sentia-se magoado, afundava-se no jornal e desembestava vitupérios em surdina, biltre, sebentão, coprófago, escória. A língua de Egisto deslizava pela perna da mamã, e esta sorria, qual ovelha, mé-mé, escrava, de travessa na mão: «O jantar está servido. Arruma o jornal.» A mamã servia o amante e levava chapada no rabo. Mais uma colherada de batatas, chega, chispe do bom, um brinde. O amante da mãe levava à boca um pedaço de carne e tocava com os dedos na carne (facas para quê, seu diarreia?) e cortava o bife com os dentes e punha o gargalo da garrafa na garganta e arrotava (risada da mé-mé, de ovelhinha, ai mamã lanífera). Orestes injuriava-o calado. Canastrão, canalha, enfelpado. Filho revoltado. «Deslarga o jornal», gritava a mamã, na sua língua aprimorada feita de destes, comestes, fizestes, deslarga, destroca. «Perdi o apetite», dizia Orestes. «Jantar perfeito mas.» Sem apetite, enojado, mãe nua, varizes, pêlos nas pernas, amante javardo.»

No mês em que é suposto terminar a silly season, e antes que chegue a época das feiras & da carne assada, erguemos barricadas com livros de poetas: de Ramiro S. Osório (Lisboa, 1939), o seu dois-em-um “aos que chegaram depois” / a vida e o seu duplo; de Helder Moura Pereira (Setúbal, 1949), O pássaro canta o seu canto simples; e de Urbano Bettencourt (Piedade, Pico, 1949), Com navalhas e navios.

Em Outubro e Novembro, se não nevar no Atlântico Norte, mais ficção portuguesa e mais poesia. E ensaio (com Nemésio, por exemplo).

Vamos falando.

Estamos vivos – e sobrevivemos sem gasolina.

Companhia das Ilhas

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