folha #005

Triplo salto / duplo cego.

Que se foda o noitibó dos neutros,

( as tuas nádegas / com as minhas mãos

marcadas) / ( de pernas abertas ao suculento

– a Europa toda nua, conta agora

com os recentes escanzelados: )

Rui Baião, “[ Danse Macabre ]”, in Balabela, Abril de 2019: 51.

Iniciamos hoje a publicação de “Crónicas” (ou ensaios breves) sobre literatura, arte, política e o que mais aprouver a cada um dos convidados. Ficamos gratos a todos.

A abrir: Luís Miguel Rosa.

Ficção com sabor a lima

O 25 de Abril foi muito perigoso para os escritores. Pedro Oom morreu no dia seguinte, Ruben A. em 1975, Manuel de Lima em 1976. Pouco os unia excepto o gozoso desdém pelo realismo literário e o amor à irreverência transposto para ficções irreverentes.

Lima estreou-se com Um Homem de Barbas, de 1944, dois anos depois de António Pedropublicar Apenas uma Narrativa. Pedro aflorava o surrealismo desde os anos 30 quando em Portugal ainda se chamava “sobre-realismo”. Pedro, sortudo, arranjou uma editora, a Minerva; Lima, ainda mais sortudo, custeou uma edição de autor mas sacou um prefácio a Almada Negreiros.

Imediatamente embateu contra o colosso crítico da centúria passada. João Gaspar Simões apreciava Almada, ou não fora responsável por editar Nome de Guerra na editora onde trabalhava; mas se valorizava nele o carácter espontâneo, “infantil”, “primitivo”, a oralidade e naturalidade de quem não estava a fazer literatice, já a ficção de Lima era “fabricada com o cérebro”, um frio “produto de um dedutivismo à base de crítica.” A Simões, com ódio ao artifício e a quem removesse o homem da arte, eram-lhe suspeitos o humorismo, o irracional, o fantástico.

A utilidade duma resenha negativa destas em início de carreira é que te cura da ilusão do triunfo; podes trabalhar serenamente porque sabes à partida que nunca agradarás. A recente Obra Reunida (Ponto de Fuga) esclarece duas coisas: nunca escreveu demasiado, 500 páginas em 30 anos de actividade; e nunca se desviou dos seus inícios.

Quando se fala neste período, exagera-se uma hegemonia neo-realista, que não ia além de uma dúzia de ex-estudantes coimbrões tentando vingar igualmente no meio literário. Contudo, essa dúzia operava dentre centenas de outros escritores que, com excepções, não duvidavam da pujança e nobreza dum realismo humanista herdado do século XIX que, misturado à solenidade e ao lirismo melancólico locais, os indispunha contra o riso, o grotesco, o ridículo.

Sentiu-se em casa desde cedo no exíguo nicho vanguardista. “A Quimera da Fortuna”, um conto agora recuperado, saiu na revista Litoral (1944), dirigida por Carlos Queiroz, poeta com uma perna no Orpheu (era o sobrinho da famosa Ofélia) e outra na Presença. Bernardo Marques, que ilustrou Um Homem de Barbas, dirigia o grafismo da revista. A seguir publicou na Contraponto Malaquias (1953), que “me rendeu bem bom dinheiro”, constatou Luiz Pacheco. Contudo, o desafogo durou pouco tempo; em 1959, embora a imprensa anunciasse para breve A pata do pássaro desenhou uma nova paisagem, a falência da Contraponto deu sumiço às 80 páginas já na tipografia. Saiu só em 1972 na Estampa, que no ano seguinte servia Contos do Gin-Tónico. Isto levou-o a tornar-se um objecto de bibliófilos: em 1970 os alfarrabistas pediam 120$00 por uma a 1.ª edição de Malaquias.

Veio uma ventania vanguardista arejar os gostos convencionais; Vítor Silva Tavares, discípulo de Pacheco, fez-se à Ulisseia e lá se publicou O Clube dos Antropófagos. Já coordenava no Jornal do Fundão o suplemento & Etc., onde Lima também colaborou. Os lunáticos em alta por uns tempos, por entre muita parvoíce e porcaria houve Mário-Henrique Leiria, Virgílio Martinho, Manuel da Silva Ramos, Alface. No princípio era Lima, um raio de sol e um rio de riso através do deserto da moderada, melancólica, miserabilista ficção dos anos 40 e 50. A Obra Reunida está aí finalmente para se entender isso com nitidez.

Luís Miguel Rosa

Estamos a fazer com os autores

  • – Carlos Alberto Machado: Hotel dos Inocentes (ficção)
  • – Dimas Simas Lopes: O Rapto (ficção)
  • – Gisela Cañamero: Para além do Muro / Jenseits der Mauer (teatro; versão alemã)
  • – Helder Moura Pereira: O Pássaro Canta o seu Canto Simples (poesia)
  • – Henrique Manuel Bento Fialho: Call Center (ficção; 2.ª ed. revista e acrescentada)
  • – José Manuel Teixeira da Silva (texto) e Ana Abreu (ilustração): Sombramar (ficção)
  • – Luís Miguel Rosa: Um dia, um grande homem eloquente (ficção)
  • – Martin Crimp: Definitivamente as Bahamas / Play House (teatro)
  • – Miguel Falcão e Catarina Firmo (coord.): Marionetas e Formas Animadas: Teorias e Práticas (ensaio)
  • – Nuno Costa Santos: Mãos sem Troco (poesia)
  • – Paulo Rodrigues Ferreira: Uso Errado da Vida (ficção)
  • – Pedro Eiras: Museus (ficção)
  • – Ramiro S. Osório: “aos que chegaram depois” (poesia)

livros para saírem até meados de Novembro, à medida das nossas posses…

Continuamos como antes: os compradores de livros são cada vez menos, as livrarias demoram meses e meses a entregar-nos o produto das vendas dos nossos livros, que lá colocamos a expensas nossas, em consignação (há pouco, telefonámos a três devedores: nem atendem o telefone…) Pois, há muito pouco com que ir para a tipografia. É assim, senhoras e senhores. Vida difícil. Somente para a maioria dos portugueses, claro.

Mesmo assim: estamos vivos – a não ser que o Centeno diga que não.

Cães de palha não ladram. A mortos

históricos com um cordel em cada pé

Rui Baião, “[ Haluga-çe Aneqsu ], in Balabela, Abril de 2019: 53.

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