Folha #002

Folha #002

21 de Março de 2019

Hoje é dia mundial da poesia e pirilampam por aí ebulientes e devotados amantes da coisa poética: festivais, feiras & feirinhas, rebajas & coisa e tal, poetry slams, quintas e jardins de leituras, tudo bem animado por poetas do povo & da burguesia (que se confundam e se misturem não causará – historicamente – muitos estragos, pois é tudo devidamente acolchoado – e asséptico). Amanhã (não) há mais.

Por entre a festa, a leitura.

Há anos, a Porto Editora abocanhou a Assírio & Alvim (A&A) e outras editoras. Por essa altura, o patrão da Porto, um tal dr. Vasco Teixeira, tinha, esperançoso, decretado o fim da edição de poesia e da própria poesia. A mesma Porto, & apaniguados, invadem agora o “mercado” (livrarias, feiras do livro municipais, festivais e etc.), com os “vendáveis” livros de poesia da A&A (os mortos e os aspirantes a), e umas coisas a que vai espanejando o pó. E as livrarias, quando (ainda) têm estante de poesia, limitam-se, obedientemente, a dar contornos arejados ao desejo do sr. Teixeira de dar o golpe de misericórdia à agonizante, segundo ele, poesia, expondo os livros que o homem e os “editores da casa” vão regurgitando e, deste modo, abafando os outros (quando os há), ou seja, levar a que os livros e a poesia deixem de causar danos ao seu império. Disfarçadamente, por entre os calhamaços de capa dura do sr. Teixeira e dos seus serventuários, os livros de poesia que não aspiram à normalização.

Na Folha #001 (28 de Fevereiro), falámos dos livros de poesia publicados no primeiro trimestre deste ano: CLASSICO, do José Ricardo Nunes; ANIMAL VEGETAL, do FS Hill; A GUN IN THE GARLAND, da Madalena de Castro Campos; ESSAS ALEGRIAS VIOLENTAS, da Catarina Costa. E dos que estavam para chegar em Abril e Maio: a poesia publicada pela Companhia (2012-2018), antologiada em A GARGANTA INFLAMADA, com organização do poeta José Manuel Teixeira da Silva; da recolha poética (1972-2018) CARMES, do Paulo da Costa Domingos; da colectânea de estórias curtas da Inês Lourenço, ÚLTIMAS REGRAS; do Alexandre Sarrazola, com a narrativa TRIQ GATTO MURINA; de COM NAVALHAS E NAVIOS, do Urbano Bettencourt, que reúne poemas escritos entre 1972 e 2012. A maioria destes livros está nas livrarias com quem trabalhamos (até ao final de Abril, juntam-se a livraria da Universidade Católica em Lisboa, a nova Culsete em Setúbal, e a Almedina em Lisboa, Coimbra e Porto).

Até meados de Julho, contamos publicar mais um punhado de livros, de que falaremos nas “folhas” que virão. Para já: algum teatro (peças) – Ana Vitorino, Carlos Costa e João Martins, com TEORIA 5S / VELOCIDADE DE ESCAPE (parceria com o Visões Úteis); Samuel Beckett (em tradução de Isabel Lopes, a partir da versão francesa do próprio autor), A ÚLTIMA BOBINA / EU NÃO / CADEIRA DE EMBALAR (parceria com o Teatro da rainha). E a versão alemã da peça Para além do Muro, JENSEITS DER MAUER, da Gisela Cañamero (parceria com o Arte pública).

O ensaio sobre artes performativas, MARIONETAS E FORMAS ANIMADAS: TEORIAS E PRÁTICAS, colectânea de ensaios coordenada por Miguel Falcão e Catarina Firmo, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Vamos dar continuidade à publicação da obra completa de Nemésio, em parceria com a Imprensa Nacional, com um volume de ensaios, SOB OS SIGNOS DE AGORA / CONHECIMENTO DE POESIA, e outro de crónicas: ONDAS MÉDIAS / O SEGREDO DO OURO PRETO. Sobre Nemésio, o ensaio de José Martins Garcia VITORINO NEMÉSIO. À LUZ DO VERBO.

Na poesia, teremos novo livro de Ramiro S. Osório: AOS QUE CHEGARAM DEPOIS.

A narrativa ficcional terá como protagonistas, dos Açores: Dimas Simas Lopes (O RAPTO), Álamo Oliveira (CONTOS CONTADOS) e Leonor Sampaio da Silva, texto, Carlos Carvalho, imagem (POUCA TERRA).

De outras geografias: USO ERRADO DA VIDA, a estreia em romance de Paulo Rodrigues Ferreira. O UNIVERSO & OUTRAS FICÇÕES é uma colectânea de contos de Carlos Alberto Machado, uma incursão no universo de Jorge Luis Borges.

E um livro do nosso querido amigo José Amaro Dionísio, O NOME DO MUNDO 1969-2019, para voltarmos a falar da escrita e da morte, como (quase) sempre. «Exceptuando Os Passos em Volta de Herberto Helder e alguns textos de Carlos de Oliveira, poucas vezes a prosa tornada poesia atingiu tão certeiramente o coração das trevas.» (Manuel de Freitas, Incipit, Averno, 2015: 77).

Escrevíamos há uns anos (está no nosso sítio da rede): «Os nossos autores, os “géneros” e as colecções são escolhas de gosto pessoal. Articulam-se com a opção de editar “géneros” negligenciados por grande parte das editoras portuguesas – poesia, teatro, ensaio, conto. Os preços justos são uma opção política editorial, não um estratagema comercial (o que implicaria a subalternização de textos e de autores). Esta política agiliza a edição e passa ao lado das máquinas (demasiado) bem oleadas do mainstream. A Companhia das Ilhas é bem capaz de ser ilha: ilha movente que deita âncora aqui e ali: livrarias (reais e virtuais), formas várias de distribuição (mas atenta às perversidades do sistema e sempre pronta a zarpar para outras geografias).» É isto.

Estamos vivos (parece).