Folha # 001

28 de Fevereiro de 2019

 

Fora de arraiais, festas, festinhas, carnavais & festivais, a carregar algumas dívidas e muitas dúvidas – nestes tempos em que tantas pessoas gritam a sua certeza inabalável no mundo e no sentido que para elas o mundo tem (ou deverá ter) –, os LIVROS (caixa alta, sim). Essas criaturas frágeis, a quem tantas vezes se pede, ou se exige, o que eles não podem (nem querem) dar. Nós, editores, tão frágeis quanto os livros que editamos, não queremos expô-los à voracidade das modas, maquinetas totalitárias movidas a saliva ácida dos tolos. De certo modo, protegemos a fragilidade dos livros – tanto quanto podemos, sabendo embora que é tarefa difícil vencer a choldra. Mas havemos de lhes morder as canelas, mandar-lhes com os unhaços aos pescoços, com afinco, ai isso sim.

 

Entrámos no oitavo ano de publicação. Foi em Maio de 2012 que saíram os primeiros seis (pequenos) livros da Companhia das Ilhas, com o editor da casa, Carlos Alberto Machado, e o António Cabrita, o Fernando Machado Silva, o Nuno Costa Santos, o Pedro Eiras e o Mário T Cabral, este grande amigo que um cancro ceifou no Outono de 2017.

Continuamos com as mesmas dívidas e dúvidas e umas poucas confiáveis certezas (não dá para mais), neste ano que já cumpre dois meses, um deles de perna curta. Em Janeiro e Fevereiro, portanto, alinharam connosco os poetas José Ricardo Nunes, o FS Hill e a Madalena de Castro Campos (CLASSICO, ANIMAL VEGETAL e A GUN IN THE GARLAND, respectivamente). A Madalena começou com a Companhia a publicar os seus poemas, agressivos e irónicos, e este já é o seu terceiro livro (os outros foram O Fardo do Homem Branco e La Mariée Mise à Nu).

O Zé Ricardo regressa, depois do livro de contos Confissões e do de poemas Três Oito e Setenta e Cinco: o Classico (e não “clássico”, já agora), mereceria, como tantos outros, tivéssemos nós alguma coisa parecida com uma imprensa cultural, boas conversas à volta do ofício da poesia e das suas maneiras de olhar o mundo (ou de o fazer, como se queira).

O (disfarçado) FS Hill fintou-nos com os livros anteriores, mas desta vez apanhámo-lo com o ANIMAL VEGETAL, livro de uma mordacidade que há-de dar (ou daria, pois) muito que falar.

A Catarina Costa, poeta de quem tanto gostamos, oferece-nos, já em Março, o ESSAS ALEGRIAS VIOLENTAS, livro intenso, perturbador. Idem.

 

Abril e Maio: estamos muito felizes pelo que aí vem nestes dois meses. A saber: o poeta José Manuel Teixeira da Silva organiza uma antologia de todos os poetas (33) que publicaram na Companhia das Ilhas entre Maio de 2012 e Maio de 2018. Vai chamar-se A GARGANTA INFLAMADA. É «(…) uma espécie de objecto de geometria variável, em que o acaso não será de negligenciar, na sua secreta sabedoria. A partir da contiguidade dos textos, estarão subentendidos dípticos, trípticos e outras sintonias ou confrontos, diálogos feitos de afinidades, rupturas e ressonâncias várias (…) E será essa, numa dobra sobressaltada da poesia e da vida, a razão fundamental do trabalho de uma editora que, desde o seu nome, nos fala de uma solidão acompanhada. No incerto entrecruzar de palavras lançadas sem remédio ao papel, surpreender a nossa tao simples, difícil, gloriosa e desgraçada existência, que a poesia tem a vocação de, vitalmente, reafirmar.» Por estes excertos do texto de abertura do José Manuel se percebe bem, cremos, como esta antologia será importante para nós – e, esperamos, para quem acompanha os nossos livros de poesia e os autores que publicamos.

O Paulo da Costa Domingos é um amigo de sempre. Temos por ele uma imensa estima e consideração – é isto que por vezes se escreve em dedicatórias de livros, quando se torna difícil dizer em poucas palavras a… estima e consideração que temos por alguém. Pelo Paulo. Pelo PCD. E pronto. Em Abril: um livro que assim se apresenta à praça: Reunir num volume a parte substancial de versos escritos entre 1971 e 2018 é como lançar uma nova desordem no que muitos leitores tinham dado por arrumado na estante. Reunir é quebrar, entre outros, esse alheamento. Paulo da Costa Domingos (Lisboa, 1953) – escritor que, à semelhança de Herculano, vem disputando palmo a palmo a sua vida intelectual – assume agora, em Carmes, o compromisso antológico de uma obra poética ímpar, que se estende por 570 páginas de poemas, revistos e redistribuídos, uma significativa parte deles ainda inéditos. Vamos a eles!

 

Até ao final de Maio, outros autores, amigos que nos confiam os seus livros: a Inês Lourenço, o Alexandre Sarrazola e o Urbano Bettencourt. A poeta Inês Lourenço (de quem editámos três obras: as micro-ficções de Ephemeras e os de poesia O Segundo Olhar e O Jogo das Comparações), abre novamente aos leitores o seu universo poético com o ÚLTIMAS REGRAS, onde retoma a fórmula iniciada em Ephemeras, conjugando nele a prosa poética e a micro-narrativa, numa tonalidade mordaz e ácida que tão bem a caracteriza.

A escrita do Alexandre Sarrazola é, julgamos, uma das mais fortes da nossa contemporaneidade, com «uma beleza fora do tempo, ostensiva, descarnada, fantasmagórica». Depois de o editarmos duas vezes (Kinderszenen e Smalloch), acolhemos agora a narrativa TRIQ GATTO MURINA, jogada por terras de Malta (a rua do Gato Murina) e noutras geografias.

O poeta e ensaísta Urbano Bettencourt, amigo com quem começámos a editar livros nos Açores (2005), volta à Companhia depois da breve antologia poética Outros Nomes, Outras Guerras e do ensaio O Amanhã não Existe, sobre o grande escritor José Martins Garcia. O seu novo livro, COM NAVALHAS E NAVIOS, reúne poemas escritos entre 1972 e 2012. Nascido na ilha do Pico em 1949, foi professor (doutorado em estudos portugueses), na Universidade dos Açores entre 1990 e 2014, é um peculiar poeta açoriano – a descobrir noutras latitudes.

 

Até final de Maio, primeira quinzena de Junho, publicaremos mais uma mão cheia de livros – e deles aqui daremos a notícia possível (esta folha está em permanente actualização). Livros que naturalmente ficarão de fora de folias, correntes, cordames e outros atavios com que se vai tentando enredar os livros.

 

Estamos vivos (parece).