Revolucionários e Querubins

José Martins Garcia

Prefácio: Leonor Sampaio da Silva

Numa sociedade revolucionariamente ruidosa, é ao silêncio que os querubins estão destinados. Os verdadeiros querubins apodrecem na solidão. Depois de um entusiasmo genuíno com a possibilidade de virem a transformar o mundo, soçobram quando se apercebem da «real insignificância do seu respirar». Os ensinamentos que nos deixam advertem-nos para o risco de se acreditar na liberdade política. Esta não passará jamais de uma «ocasional faísca […] sucessivamente anulada pela cegueira dos átomos». O sábio sabe que não pode falar de liberdade sem colocar a sua vida em risco. Assim se comporta o escritor: rodeado de detritos, ciente da podridão nauseabunda que infesta a vida social, enfrenta diariamente a morte, mas usa o resto das suas forças para a desarmar, armando-se , de seguida, com «o amor possível» com que enche folhas e as vê «dispersas numa caligrafia instável». Diferente do revolucionário e do querubim, ele persiste na afirmação da liberdade pela escrita.
O revolucionário, uma vez no poder, nunca mais sai de casa: sem incertezas ou hesitação, perde o contacto com a população, dá ordens que destoam das necessidades do país, isola-se num poder totalitário e violento que mergulha a sociedade num irreversível eclipse. O querubim remete-se à mudez, apregoa o silêncio, descrê da liberdade. É alvejado ao lado do seu balde de ódio e, envergonhado, pede desculpa por tudo, excepto por existir. O escritor apoia-se em dúvidas, loucuras e palavras para berrar numa caligrafia inquieta que o país é uma corja. E desse modo afirma, pela criação literária, a sua liberdade.

Leonor Sampaio da Silva

 

Excerto

A Revolucionária mais triste que conheço chama-se Alice e não deve nada à beleza. Possui até uns dentes excepcionais, grandezas que lhe terão complicado a vida sentimental. Falo da doutora Alice com infinita simpatia, uma simpatia nunca regateada a esse ser extremamente sensível e até inteligente. Desde os bancos do liceu que conheço a doutora Alice, mulher esguia a evocar saúde débil, ar pensativo, olhos inquietos e um quantum satis de maldade ou frustração.

A doutora Alice, não sendo estúpida, nunca esteve empenhada no cultivo da virgindade. Compartilhou as greves académicas, mas da vida colectiva não lhe adveio qualquer atentado ao virgo. A futura doutora Alice era mesmo feia e, se tivesse nascido numa aldeia católica, talvez a bafejasse a vocação conventual.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-99-6

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 216

Ano: 2019 | Dezembro

Nº Edição: 188

Colecção: Biblioteca Açoriana 012

Obras de José Martins Garcia 011

Género: Ficção

PVP: 16 €

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