Poesia Reunida

José Martins Garcia

«Há nomes que vão existindo connosco numa convivência serena. Assim se passou, desde que me lembro, e graças à casa que me foi colo, com José Martins Garcia. Um nome sempre presente e muito admirado. Apesar dessa proximidade, contudo, conhecia mal a sua poesia (e toda a sua obra). Lera-a de forma esparsa, quando e onde, na ligeireza do tempo, nos cruzávamos. Revisitá-la agora foi, pois, uma experiência impressionante. E surpreendente, confesso, não pela sua (óbvia) consistência, mas pela sua fragilidade, a fragilidade lúcida que dá corpo à mais notável grandeza.
Para percebermos, desde logo, uma característica basilar desta poesia, tomemos a magnífica epígrafe da sua estreia poética (feldegato cantabile, 1973) – «si je préfère les chats aux chiens, c’est qu’il n’y a pas de chats policiers». Adverte-nos bem para o que nos espera. Com uma poesia complexa e multiforme, plena de um ritmo e de uma música singulares, que se movimenta, de forma por vezes violenta, entre a ironia e a amargura, a dor concreta do desencanto e a ilha simbólica da distância, Martins Garcia não é poeta de mimos telúricos e foge a qualquer prisão. Não há cão que o policie, não há mão que o detenha na esterilidade das categorias.(…)»

Renata Correia Botelho (do Prefácio)

Nas Livrarias na última semana de Setembro.

 

Excerto

GATO ELEITOR

 

o gato vai votar
hoje o gato é cidadão
lá vai ele a coxear
com a lista na mão

hoje o gato vai votar
vai votar pela justiça
vai deitar a opinião
na liça

lá vai ele a coxear
cheio de justa opinião
lá vai ele a arrastar
com a cauda pelo chão

de repente ouve ladrar
e retrocede apressado
sumindo a lista no chão
e retrocede apressado
pelo sim pelo não
que isto não há que fiar
em assembleias de cão

mal refeito do susto
vai compondo esta canção

era uma vez
um gato português
não dizia sim
nem não nem talvez

era uma vez
um gato português
bebia cerveja
jogava xadrez

era uma vez
um gato português
bebia por dois
dormia por três

era uma vez
um gato português
nem soube o porquê
nem soube o que fez

era uma vez
um gato português
viveu de silêncio
morreu de mudez

era uma vez
um gato português
não dizia sim
nem não nem talvez

Nota de leitura

Ficha Técnica

Prefácio de Renata Correia Botelho

ISBN: 978-989-8828-53-9

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 352

Ano: 2018 | Setembro

Nº Edição: 141

Colecção: Biblioteca Açoriana 009

Obras de José Martins Garcia 008

Género: Poesia

PVP: 17 €

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