Pátio d’Alfândega. Meia-Noite

Álamo Oliveira

Todo o romance está estruturado à volta de um crime e da reconstrução de Jericó, após um violento sismo. O romance dentro deste romance, o que foi deixado pelo Poeta Porreirinho, é aparentemente uma tentativa de se recontar como toda uma cidade, na fúria que é a sobrevivência de um povo ante violentos sismos, avisos da natureza atlântica, e a genética ganância de quem em tudo manda e demanda, se autoconvença da sua virtude e percebe a sua continuidade histórica. Das páginas legadas por esse autor desaparecido e das que o seu amigo vai tentando pôr em ordem para uma publicação, que nunca chega a acontecer, pois enquanto a realidade-realidade é apreendida só em pedaços desconexos e a-históricos, suas excelências da cidade sabem muito bem que a realidade-ficcional é a mais completa – e logo perigosa. Nestes múltiplos diálogos, está a dissecação das tramas, obsessões e memória coletiva da dita comunidade. Um fantasma estrangeiro-holandês que àqueles portos arribou como náufrago e que se apaixonaria pela cidade e por uma das suas muitas freiras – desce à terra para com o Poeta Porreirinho ir comparando notas com o passado e o presente. O resto é uma festa de humor, sarcasmo e das mais lapidares frases.

Excerto

Morreu com um romance na barriga. Não se registou qualquer perplexidade e foi a enterrar às nove horas da manhã.
O funeral atravessou a Cidade, sob o ruído vertebral do tráfego dos funcionários públicos, embichado nas ruas de um só sentido, quase anónimo pela parcimónia, com carros atrás e à frente que transportavam pessoas sem curiosidade definida ou curiosas de outras vidas que não as dos mortos e menos daquele de que nem sabiam a cor dos olhos, nem referência social que o tornasse em morto singular. O que estava escrito ficava escrito: «Causa mortis: parto não consumado por asfixia introintelectual», assinatura apressada pelo delegado de saúde, deixada para sempre no atestado de óbito. Na véspera, fora encontrado morto – manhã de quarta-feira, 19 de março, antigo dia dos pais putativos, conforme se pode confirmar nos calendários litúrgicos de Roma, como também era visível a obesidade precoce do falecido, frontes arroxeadas, uma distinta (por que nobre) angústia nos olhos, os cabelos fumegantes. Tivera o pré-cuidado de se despir completamente, embora fosse um morto decente, vestido por uma indescritível multidão de folhas de papel, inteiras umas, rasgadas outras, numa posição de batalha terminada ou como se o vento tivesse investido pela janela e as voasse e as deixasse aterrar em belo descuido. Por isso, ninguém poderá dizer que ele morreu nu, na cama, na posição mais cómoda que se conhece: de barriga para o ar, as pernas longamente estendidas e sem varizes, os braços ao longo do corpo, como quem vai sacar uma pistola da cintura. Só depois de retiradas as folhas, se deu conta de um pormenor de posição que não deixava escapar, em primeira instância, qualquer leitura: tinha o sexo ostensivamente apontado para oriente. Não se tiraram conclusões deste anódino incidente. Não se interligaram quaisquer subtis interpretações, pois nada levava a supor que fosse possível alguém morrer com um romance na barriga e de sexo apontado a oriente. A Cidade não deu por tal morto. Pequena e provinciana, continuou a preferir os mortos ilustres. E este escapou-lhe por entre os dedos do seu arremelgado quotidiano.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-24-8

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 164

Ano: 2017 | Outubro

Nº Edição: 110

Colecção: Obras de Álamo Oliveira # 002

Género: Ficção | Romance

PVP: 14 €

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