O domínio material

João Paulo de Jesus

Galileia, anos finais do reinado de Herodes, o Grande. Poucas semanas após ter sido entregue ao noivo, a Virgem é conduzida a Jericó e à presença do rei. Quando é devolvida a José, seu noivo, Maria está grávida. Coagido por uma ordem oficial, José acaba por casar com Maria.

Após a morte de José, o édito de Herodes reaparece. Será sobre esse documento que o filho de Maria procurará refazer, primeiro, a sua identidade e depois a sua própria vida.

Refém da sua condição de bastardo de um rei morto, o filho de Maria inicia um movimento de deriva em direcção às margens da sociedade. Ao mesmo tempo que percorre os lugares simbólicos do poder da dinastia Herodiana, encontra em João Baptista um mentor que o impele a reclamar aquilo que, pelo sangue, lhe pertence.

A subversão operada sobre os referentes bíblicos encontra eco nas premissas deixadas em aberto pelo próprio texto bíblico, criando uma ficção perturbante que interpela directamente as convicções do leitor.

 

Excerto

De couraça e punhal embainhado, ele agarrou a rapariga pelos tornozelos e forçou-a a voltar-se e a abrir as pernas. A túnica que ela puxara para os joelhos deslizou-lhe pelas coxas, expondo o ventre. Ela tapava-se com as mãos. Não se queixara, não protestara. O oficial imobilizava-a com firmeza. Herodes encaixou o seu corpo flácido por entre as pernas da virgem e a sua mão desceu até os lábios entreabertos da vagina. O indicador tentou uma primeira penetração. Ela deixara de se debater, mas o velho tardava em consumar o acto. A frouxidão da pele e dos membros do rei era também a frouxidão do seu pénis. Ofegava
e movimentava-se sem coordenação por entre imprecações. Acabou por se levantar, apoiando a mão direita no corpo da rapariga.
Larga-a.
Herodes estava de pé e ela encolheu-se de imediato.
Experimenta tu.
Experimento eu?
O outro fingiu não compreender, incrédulo.
Desflora-a, o resto faço eu.
Cumpriu a ordem prontamente. Deitou-se sobre Maria e abriu-lhe as pernas com as mãos no interior das coxas. Era inútil resistir-lhe e ela fechou os olhos. Sentia a couraça a gravar-se-lhe na carne. A virgem foi rasgada numa penetração profunda e breve. A pedra arremessada pela funda de David a atingi-la por entre muralhas, no interior de uma alcova. Soltou um grito, mas já aquele homem se erguia, embainhando o pénis ensanguentado. De novo se contraiu e fechou a pernas.
O oficial voltou a agarrá-la e Herodes desceu até ela num arquejar gutural, o ser inteiro definido pelo macho e a fêmea prostrada sob a sua sombra fecundadora.
Cobriu-se e permaneceu deitada, talvez mais branca, talvez mais nova. O esperma escorria-lhe por entre as coxas. Herodes erguera-se e ficara a considerar o corpo e o rosto vazio de Maria.
Faz com que seja levada de volta.
Intimamente, o oficial cumpriu a ordem, refazendo as passagens pelas montanhas.
Será repudiada.
E o rei impiedoso e cruel olhou e viu uma criança ali deitada. Compunha as roupas e preparava-se para sair.
Paga ao marido, ele que se cale. Nós somos a morte. Não o tempo ou os róseos céus, nós próprios.
Maria ouviu, mas não compreendeu. Herodes não lhe dirigira uma palavra. Não lhes quis mal.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN 978-989-8828-37-8

Dimensões: 14 x 22cm

N.º páginas 152

Ano 2017

N.º Edição 117

colecção azulcobalto | 047

Género Ficções | Romance

PVP € 14

 

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