Morrer devagar

José Martins Garcia

Morrer Devagar é um livro de “bolinha vermelha” para pessoas mais sensíveis ou rabugentas e que já tenham perdido a memória ou para quem não aprecie a ironia, o eufemismo e o sarcasmo. E pecado mortal para beatas de sacristia pequena. Há alguma crueldade na visão da realidade que enforma este livro, há, naturalmente, um fundo real que dá motivo a cada conto, algumas pessoas da ilha ainda poderão fazer leituras de aproximação à matéria narrada, mas a universalidade do viver isolado e ignorante, a valorização do sofrimento sem grande expectativa de se viver dignamente, a ganância e o estratagema, nem que seja com “almas do outro mundo”, e a penúria, o escárnio e o maldizer a que as pessoas são sujeitas e sujeitam as outras, as crendices e os fanatismos vários, a emigração de sempre, o amor, as infidelidades, a “vida airada” e os esquentamentos, as cenas de pancadaria com que acabavam todas as festas, o aproveitamento das fraquezas alheias, tirando a já extinta guerra colonial, tudo é picaroto, açoriano, português, universal, actual e as personagens as representantes escolhidas da humanidade que se manifestava na época a que a narrativa se reporta. É a condição humana observada pela acutilante crítica de JMG levada ao extremo de um e em um lugar pequeno, uma freguesia rural semi-analfabeta de muitas visões e perspectivas, marcada por certa decadência e de um espírito retrógrado, tanto religioso como social, em que os valores se medem ao ritmo dos desatinos das personagens.
Manuel Tomás («José Martins Garcia, O Mito e a Realidade», primeiras palavras para a presente edição de Morrer Devagar).

 

Excerto

Cristóvão de Azevedo, cujas imensas nádegas ameaçavam rebentar o calção de banho, inaugurou a piscina com um mergulho de cu. Seguiu-o a elegância púdica D. Maria da Encarnação, envolvida num grande fato de banho com sainha. Depois o joverm Cristóvão, filho único estragado nos seus nove anos, deu um saltinho para o fundo, pouco profumlo na baixa-mar, e feriu um pé.
A piscina acenava a todas as classes sociais. É certo que o Vigário não molhou a batina nem a fralda, apesar da benzedura santificadora de tais sítios. O médico jazia velho e crivado de reumatismo. Em casa da veneranda família Corrêa, três solteironas expulsavam os homens com o mau hálito, enquanto seus dedinhos sapudos assassinavam valsas num piano sem remissão. Tambem a professora, D. Carolina, se benzeu perante o impudor dos novos tempos, que isso de mulher mostrar o joelho sempre lhe parecera negócio de puta. E o professor João, o fralda-cagada por alcunha herética, continuou a engravatar-se pontualmente, ignorando o ridículo de se ter visto um respeitável presidente de câmara em calção, qual serôdio diabrete ou simiesco imitador de revista brasileira.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-31-6

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 200

Ano: 2017 | Dezembro

Nº Edição: 0??

Colecção: Biblioteca Açoriana 007

Obras de José Martins Garcia 006

Género: Ficção (Contos)

PVP: 16 €

Press-kit

Autor