Memória da Terra

José Martins Garcia

«Dentre hostilidades familiares e sociais,  o romance constitui-se como referência crítica a uma sociedade insular crivada  de discriminações e preconceitos, onde a instabilidade dos afetos ganha contorno abrangente e significativo. A narrativa, fundada no improvável  e no duvidoso, apresenta um  universo imaginário em cujo cenário se cristalizaram presonagens que representam os que não acompanharam o progresso sociocultural e a evolução do mundo capitalista e arrogante que se fortalecia nos grandes continentes do hemisfério norte em meados do século XX. (…)

O fio que orienta a narrativa de Memória da Terra parte do relato de um continental de 26 anos  que chega à ilha à procura do irmão mais velho. Através das informações sobre esse irmão, a obra cresce, principalmente em razão da ausência física  do irmão procurado, em tudo a personalizar mais um duplo do que propriamente uma personagem identificável pelo que dizem dele, faz, fez ou é.

O protagonista rodopia sobre si mesmo, só evoluindo na trama pelas falas das personagens que  dão pistas para a continuação das buscas ao irmão desaparecido, cujas indicações marcam as  pegadas que logo são seguidas. Essa personagem masculina que se assume também como um ser vil e mentiroso, fraco demais para arcar com os louros da heroicidade presumida num romance de enigmas, como diria Aguiar e Silva. Sua voz mansa e sorrateira se interpõe na narrativa com aforismos de uma filosofia chã, parentizações  frequentes – explicativas ou maliciosas –, arremedos de última hora, piadinhas… Tudo a desembocar em estilo sarcasticamente irônico em relação aos relacionamentos e afazeres sociais.  As palavras ocultam a transparência das imagens. Só mesmo o olhar curioso e estupefato do leitor as atravessa  e compreende… E, se não fosse assim, não seria mesmo Memória da Terra criação de José Martins Garcia. (…)»

Vilca Marlene Merízio – Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil (do Prefácio)

 

Excerto

«Talvez o meu irmão, o eloquente, o adestrado em habilidades e subtilezas forenses, me pudesse hoje valer. Lamento, com a intuição da inutilidade de todas as lamentações, a minha inutilidade de matemático – casmurro, digamos – devidamente diplomado e inadequado a qualquer espécie de realidade. Talvez o meu irmão – morto? exilado? desaparecido? suicidado? – desfizesse, hoje, se me pudesse ouvir, a borracha da sua cara, e retirasse, por uns restos de honestidade, a palavra “nefelibata” com que me etiquetou. Talvez, perito como era na pontaria verbal, me ensinasse o termo exacto para esta mistura de riso e lágrima, onde me sinto à deriva – como um sinal abjecto numa equação insulada… coisas assim sem pés nem cabeça, pois rigorosamente não os possuem teoremas.

O abstracto – eu. O concreto – ele. Olho, nauseado, este mar de cativeiro, desde a vidraça embaciada até à indistinção lá longe. Saturação pela certa conjugada entre os meus miolos de “nefelibata” e um quadro sombrio onde não cabe nenhuma demonstração. Não sei escrever decentemente, não sei registar esta bulha que está no vento e no meu sangue aguado. Nada conheço dessa arte que ele tão bem dominava – a arte de convencer por palavras, com razão, sem razão, contra a razão… Sempre nos detestámos. Contra todas as razões, possivelmente. Ele falava como se discursasse, ele discursava como se escrevesse, ele escrevia como quem engraxasse uns sapatos destinados ao rodopio das conquistas, ele trocava qualquer sentido e triunfava. “Ironia!”»

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-59-0

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 236

Ano: 2018 | Outubro

Nº Edição: 138

Colecção: Biblioteca Açoriana 010

Obras de José Martins Garcia 009

Género: Ficção (romance)

PVP: 16 €

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