Lugar de Massacre

José Martins Garcia

Neste livro não há amanhãs que cantam, nem sequer um requiem por um Portugal moribundo, nem tampouco qualquer glorificação da luta do inimigo pela sua emancipação. O inimigo é invisível, mas existe no coração do mato e é dessa fantasmagoria que emerge o horror. A selva esconde um perigo de morte, causa de um vigilante “horror que adivinha o inquietante mais do que vê, mas que por isso mesmo o homem é apanhado por ele nas suas garras poderosas”.
A citação de Ernst Jünger é transplantada de O Coração Aventuroso, mas o horror que se vive na Guerra da Guiné está mais próximo da fronteira de temor que ecoa no Coração das Trevas de Joseph Conrad. Em Lugar de Massacre, rio acima até à Ponta do Inglês, sítio não cartografado e de indecifrável valor estratégico-militar, a guarnição, ao atingir o seu inútil destino, salta da lancha de patrulha “atascando-se até ao joelho num solo traiçoeiro” para ser emboscada pela “sombria e pensativa floresta”, de que nos fala Conrad, e de cujo coração aparecem seres humanos “como se saíssem da terra”. O horror telúrico é o mesmo que povoa o Coração das Trevas, sendo que temos Pierre Avince no lugar de Marlow e o Rio Geba é o equivalente do Rio Congo. Em ambos, os homens à deriva estão à mercê da “grande muralha de vegetação – exuberante, emaranhado de troncos, ramos, folhas, rebentos e grinaldas – que lembra uma invasão violenta de silenciosa vida, uma alta onda vegetal, prestes a desabar na enseada e a varrer os homens insignificantes”, citando Conrad.
[João Nuno Almeida e Sousa, em “À Deriva no Império Morto” texto de abertura de Lugar de Massacre]

 

Excerto

Reinava o silêncio de múltiplos despeitos quando o pátio do hospital se começou a povoar de fardas galonadas, pingalins e aparato de cocktail. Era o dia da medicina ao alcance dos mortos e dos vivos com patentes elevadas. No mesmo local onde as mãos dos maqueiros recolhiam a carne suspeitosa, as mais das vezes mal adivinhada por entre o rubro, símbolo da Pátria, estendia-se agora o festival dos serviços saudáveis aliados a Deus, ao Império e às Putas Carpideiras.
Avultava em seu linho tropical o chefe-bigodaças da Saúde Universal. E outros, mais capados que seu chefe, alçavam boinas de orientar mundos. Eram assim, nesse derrame de whisky, gim e outras libações, mais ou menos inquilinatos da antiquíssima problemática das águas internacionais. E o grande Director, selecto espírito entre os de bisturi e carne podre, jurou ali seu preito insofismável aos valores eternos da Mensagem. Mensagem que por Deus vinha nas asas dos aviões sagrados e pagados à luz do lucro, os quais entre continentes transitavam da Pátria ao desperdício.
Estava repleto o pátio em carne viva, viva essa deveras e instalada num para-durar mito exaustivo de tudo o que a linguagem protestasse. Com os corpos sagrados não de espada, mas do que abastardado Deus lhes dava, comemoravam datas e triclínios, pegos mais velhos que religiões.
Chegou-se à porta um tal Pierre Avince, louco de condição, doutor em letras, cirurgião dos fados soterrados em letra morta porca e obsoleta, e disse assim aos suínos grunhidos no entrechocar dos copos portugueses:
– Filhos da puta!

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-06-4

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 168

Ano: 2016

Nº Edição: 083

Colecção: Biblioteca Açoriana 003

Obras de José Martins Garcia 002

Género: Ficção (Romance)

PVP: 16 €

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