Katafarauns

José Martins Garcia

Com estas duas colectâneas de contos – Katafaraum É Uma Nação e Katafaraum Ressurrecto –, juntas num só volume (palavras de abertura de João Pedro Porto), a Companhia das Ilhas continua a publicação da obra integral de José Martins Garcia, um dos mais importantes escritores portugueses do século XX.

Até ao final de 2017 serão publicados: Morrer Devagar, colectânea de contos, com palavras de abertura de Manuel Tomás, e Contrabando Original, romance, com palavras de abertura de Rosa Maria Goulart.

Em 2016 saíram os primeiros volumes, três romances: A Fome (com palavras de abertura de Luiz Antonio de Assis Brasil), O Medo (com palavras de abertura de Alexandre Borges) e Lugar de Massacre  (com palavras de abertura de João Nuno Almeida e Sousa).

 

Excerto

Katafaraum, o mais célebre de todos os centros da cultura hidrófila, foi arrasada por um maremoto, no ano setenta da nossa era. Lamentando tal perda, o historiador tem de reconhecer, todavia, que a submersão de Katafaraum aconteceu no momento exacto, isto é, no momento em que a cultura hidrófila executava a viragem para a esterilidade. Alguns pensadores pessimistas poderão objectar que estéril sempre o fora e sempre o seria essa cultura que deixou para a posteridade uma escrita intrigante. Nós responderemos que, para além das aparências, a escrita de Katafaraum legou-nos um tesouro, quanto ao sistema de representação e quanto às máximas que encerra.

O sistema de escrita usado em Katafaraum deu grandes dores de cabeça aos modernos Champollions. Foram propostas tantas teorias de leitura quantos os cérebros empenhados na decifração. Tentou-se a leitura da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda; de cima para baixo e de baixo para cima; na horizontal  e na vertical; em cruz e em espiral; em árvore e em leque; em cilindro e em esfera; em teia de aranha. Nada. Até que o sábio oriental Nanfazcafalta, iluminado pela virtude de muitos jejuns, descobriu que  a escrita de Katafaraum constituía um sistema sui generis, cuja leitura era independente dos traços deixados pelos escribas katafaraónicos.
A decifração dependia, não dos caracteres observados, mas exclusivamente da posição tomada pelo decifrador. Nanfazcafalta constatou que um erudito sentado nunca chegaria a interpretar um único símbolo katafaraónico. O mesmo se aplica aos sábios deitados, ajoelhados, acocorados ou de pé – posições que vedam o acesso ao símbolo. Nanfazcafalta empreendeu a decifração de numerosos fragmentos, colocando-se naquela posição a que se dá o nome de pyno. O êxito de Nanfazcafalta deve-se ao princípio que diz que as posições do texto e do leitor não são permutáveis.

 

Nota de leitura

UM OLHAR CLÍNICO SOBRE PORTUGAL

Neste volume reúnem-se duas das obras emblemáticas de José Martins Garcia, Katafaraum é uma nação e Katafaraum ressurrecto, separadas por três décadas, mas que acabam por ser as duas faces de um mesmo olhar clínico sobre um mundo de sonho e um território de outras latitudes que muitas vezes se cruza com o nosso Portugal. Está aqui todo o fervor crítico de Garcia, toda a sua

criatividade. Dois livros fundamentais da sua obra num único volume.

Fernando Sobral, destaque no Jornal de Negócios de 30 de Junho de 2017

 

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-22-4

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 264

Ano: 2017 | Maio

Nº Edição: 105

Colecção: Obras de José Martins Garcia # 004

Género: Ficção | Contos

PVP: 15 €

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