Ficas a dever-me uma noite de arromba

António Cabrita

Ficas a dever-me uma noite de arromba é uma colectânea de contos de ambiência moçambicana, com o humor corrosivo e a mestria de bem tratar a língua portuguesa, atributos singulares da prosa de António Cabrita.

Excerto

A linguagem é traiçoeira mas permite-nos recortar o inexprimível e contar como o Zibelina bateu com os ossos no céu. Embutido na transparência azul. Bastou um tiro com uma carabina para caça grossa. A arma deu um coice no ombro do guarda-fronteiriço, que se aproximou do morto a massajar a omoplata. Antes de o virar com um pé, cuspiu.
[ A boa vizinhança]

Nota de leitura

Ficas a Dever-me Uma Noite de Arromba, de António Cabrita, inaugurou a colecção azulcobalto, os atraentes caderninhos editados com esmero e acerto pela açoriana Companhia das Ilhas. Ao leme, o poeta e dramaturgo Carlos Alberto Machado.

Poeta, ficcionista e ensaísta, Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das valências, respectivamente: Não Se Emenda a ChuvaO Branco das Sombras ChinesasRespiro. Que essa produção tenha sido acolhida com silêncio quase total (?), eis o que se pode lamentar ou tentar inverter. Escolha-se esta última via.

Cabrita transporta para os contos aqui reunidos a sua bravura estilística e construtiva. Neles se encapsulam as virtualidades de uma escrita da ordem da minúcia e de uma exuberância refreada – «Julieta mira pela janela como caem em cachos as flores de jacarandá e sente na nuca o clamor dos decapitados» (p.14)

Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso – «E o Marinho mostrou a mão esquerda, cicatrizada, sem o dedo anelar. Sorriu com os incisivos que lhe faltavam» (p.23) –, distinguem-se pela disciplina da frase – «ficaram na varanda, a bebericar num último uísque e a contar as estrelas cadentes num céu abarrotado de luzeiros» (p.31) – e pela boa gestão dos recursos à disposição – «O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna.» Dir-se-ia que «grampo» é a palavra-chave, mas a chave deste como doutros achados de António Cabrita está, antes, na solidez da sua oficina, não em qualquer truque isolado.»

[Hugo Pinto Santos, Time Out]

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8592-01-9

Dimensões: 11×15

Nº páginas: 48

Ano: 2012

Nº Edição: 1

Género: Ficção / Conto

PVP: 6,45 €

 

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