Daqui ninguém entra

Vasco Gato

Ela não quer ver ninguém. A porta, ainda que fechada, é no entanto a sua maior vulnerabilidade. O seu maior obstáculo também. Num mundo de gente trancada, quem guarda ainda essa chave que, no dizer de Hofmannsthal, permite com cada coisa abrir outra coisa? Quem se atreve a empunhá-la?

Daqui Ninguém Entra é um lugar em que dentro e fora se dispõem a medir forças. A partir de um momento perdido na juventude, a solidão assume-se como um troféu que inaugura a individualidade. Porém, o custo poderá ser demasiado alto. A abertura dessa paisagem própria encerra a ameaça do seu povoamento pela perda e pelo cansaço.

 

Excerto

De trás do sofá surge uma mulher, que tinha ido apanhar algo. Contorna o sofá e senta-se. Suspira. Ouve-se bater à porta.

MULHER

Entra. [nova pancada na porta] Entra, já disse. [silêncio] Então não entres. Não é preciso. Não faz falta. Posso perfeitamente continuar assim. Tenho estado assim. Foi a vida que quis assim. Que digo eu? Os outros, os outros quiseram assim. E eu também, claro. Mas não é fácil distinguir quem contribuiu com o quê. [nova pancada na porta] Entra! Porra! Nem quem levou o quê. Fiquei eu, é o que importa. E nunca há-de faltar noite para me dar conta disso. [levanta-se, caminha] Lembro-me do tempo em que achava que isso nunca me iria calhar. A solidão. As casas eram espaços abundantes, as primas, os irmãos, as horas da tarde, gordas de expectativa. Exacto, quando ficava sozinha era ainda claramente um interregno na experiência da abundância. Não é isso a solidão. Casas sem horizonte, casas de solidão. Casas como esta. [nova pancada na porta] Isto não é nada. Nunca foi nada.

[…]

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-15-6

Dimensões: 11x15cm

Nº páginas: 40

Ano: 2016, Outubro

Edição: # 096

Género: Teatro

Colecção: azulcobalto | teatro # 015

PVP: 7,5 €

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