Cordas de areia

Ana Paula Martins Goulart

Este livro é um livro de encontros e de reencontros.
Se for um reencontro, em companhia da “Menina”, os leitores vão continuar a percorrer as “Ilhas Caganitas”, navegando pela “Terceira Ilha”, para depois se perderem no fundo de armários e nos esconderijos secretos, escondidos atrás dos grandes aparadores. Com sorte, até poderão assistir a uma “Guerra no Cemitério”!
E, de quando em vez, vão apear-se na “Cadeira de Pensar”, a tal que para rodar só precisa do impulso certo, movendo-se então bem mais depressa do que o velho globo, aquele que chia muito, porque afinal carrega sobre ele todos os países cor de sépia e mais a terra dos poetas.
«Será que foi um abalo de terra?»
Vão conhecer outros animais das profundezas (que às vezes nos saltam para o regaço), ressentir o fascínio do raio verde se o tempo for tempo de poente e, por um bocadinho, sonhar ao som dos bandolins, saboreando uma laranjada do “Sr. Raimundo”.
Mas se este livro for para o leitor o primeiro encontro, vai achar: exactamente o mesmo! Com uma única diferença – temos de lhe dizer, num escuto, que esta história não começa aqui; começou muito mais longe, quase em “Nólins”, do outro lado da Terra, nas páginas-vagas de um livro chamado Nem tudo no mar é água.
Em 2016 Ana Paula Martins Goulart publicou na Companhia das Ilhas um inesperado e apaixonante Nem tudo no mar é água, onde deixou estórias da sua meninice, passada na ilha do Faial, onde nasceu, em 1958, e do Pico, espaço-tempo de férias. Cordas de Areia é mais um encontro com esse tempo-memória.

Excerto

– Sabes que logo vão operar a coelha branca? – Perguntou, todo entusiasmado, o meu mano mais novo. Arregalei os olhos de preocupação:
– A coelha grande? Porquê? Ela está doente? Com quê? – Quis saber, tão aflita que até parecia a Mãe, quando me sabia a adoecer.
– Deve estar doente, deve. Ou então vão guisá-la. – E fez uma careta. Mas, perante o meu ar cada vez mais horrorizado, resolveu condescender um pouco:
– A sério, eu não sei o que ela tem. Mas não faz mal. – E encolheu os ombros. – O Pai vai curá-la na mesma! – Engatou uma mudança imaginária e desapareceu, acelerando pelos carreiros do jardim. Eu fiquei a vê-lo desaparecer, pé pesado no acelerador, mas muito hábil nas curvas.
[…]
– Pai! Pai! O senhor pode esperar um bocadinho? – E corri para ele, sacudindo as mãos molhadas na manobra náutica. O Pai olhou em volta, procurando com uma mirada atenta a pequena gritadora:
– Ah, estás aqui, Carocha. O que queres? – E recomeçou a subida do Passeio Pequeno, enquanto ia acendendo um cigarro. Eu gostava daquele cheiro, e do cheiro a fixador e do cheiro a perfume. O meu Pai era tanto cheiroso!
– Ó Pai, é verdade que a coelha branca vai ser operada hoje? – Inquiri num tom desprendido, quase profissional. O Pai estava cansado, o seu passo e o seu olhar eram lentos:
– Sim, vamos operá-la logo. – Parecia que estava a falar com muitas pessoas ao mesmo tempo.
– Ela está doente? – Indaguei a medo.
– Não. – O laconismo do Pai fez-me temer o pior. Se calhar o meu mano tinha razão! Enchi-me de coragem:
– Vão guisá-la, vão? – A voz saíra-me baixa e com tremeliques.
– Guisá-la?! Mas que ideia tão mirabolante! Agora cá! –
O seu espanto pareceu-me convicto, mas então:
– Olha, Carocha, o Pai agora não tem tempo para te explicar. O melhor era que viesses connosco. Se assistires, depois percebes tudo.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-32-3

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 224

Ano: 2017 | Maio

Nº Edição: 107

Colecção: transeatlântico # 023

Género: Ficção | Romance

PVP: 15 €

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