Carmes (1971-2018)

Paulo da Costa Domingos

Reunir num volume a parte substancial de versos escritos entre 1971 e 2018 é como lançar uma nova desordem no que muitos leitores tinham dado por arrumado na estante. Reunir é quebrar, entre outros, esse alheamento.

Paulo da Costa Domingos (Lisboa, 1953) – escritor que, à semelhança de Herculano, vem disputando palmo a palmo a sua vida intelectual – assume agora, em Carmes, o compromisso antológico de uma obra poética ímpar, que se estende por 570 páginas de poemas, revistos e redistribuídos, uma significativa parte deles ainda inéditos.

 

Excerto

Ecoa o pulmão nos estreitos
corredores imóveis de funda
gruta, quando é como o outro:
fingidor – e os seus fingidos
iluminam paredes de escadas
conducentes ao céu dos poetas,
lá onde só baixo se fala.
É tudo uma questão de ponto
de vista e pulsação – está escrito
no lance de cartas, escrito n’ areia
sob o canto húmido de búzios:
este homem teria podido tudo
sozinho, mas preferiu caçá-los,
marmoreadamente, em matilha.

Nota de leitura

Belíssima edição de um belíssimo conjunto que nos oferece a obra poética de Paulo da Costa Domingos (…).
Nestes Carmes, que evocam as Carmina Burana dos monges medievais, foliões do canto e da música acompanhando o bom vinho que os inspirava também, passa a terra, passa a vida vivida em contraponto com a vida desperdiçada. Nos poemas não se desperdiça nada, tudo é contado ao pormenor, seja a vivência mais realista, seja a emoção mais transfigurada. Não se pode esquecer que a poesia tem a sua própria gramática e que cabe ao leitor atento não cometer erros ao ler.
Abro o livro e começo com a advertência do autor que nos diz que convém ao lidar com os poemas recuperados na escolha feita (outros poderão ter existido e ficar postos de lado), ter a noção de que aqui se parte não para uma ordem definitiva mas para uma “nova desordem”, que quebra, no entanto, falsas separações que pudessem ter existido. Tudo é Uno, na vivência poética, o antes como o depois, ou o agora, neste momento já de leitura. Convivem, neste percurso de vida o revoltado, o doente terminal, as várias figurações da Mulher, o que é afinal aos olhos de Paulo o Eterno Feminino?, o néscio, o vingativo, o amoroso, e até mesmo o cadáver. Também os Monges Vagantes, como o Paulo, vagante de agora, cantaram tudo, no passear da vida. Não é por acaso que o autor nos deixa entender que afinal é a cidade de Lisboa que ali está, figuração suprema de uma vida e da sua realidade como dizia Pessoa, nas suas “muitas cores”, mais claras ou mais obscuras. Lisboa, amante do Tejo, o rio que a corteja e pode ser admirado no Cais eterno das Colunas, como “Voz do Mundo no lugar onde a Terra se refresca”.
Paulo conclui a breve nota de introdução afirmando que conquistou, ao longo de 40 anos, “palmo a palmo” a sua vida intelectual. Por isso se revela tão rica de significação esta sua recolha. Matéria de estudo, para os mais novos, que julgam inovar no que já está inovado, de há muito. (…)

Yvette K. Centeno, blogue Literatura e Arte, 28 de Abril de 2019.

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-74-3

Dimensões: 15×17,5cm

Nº páginas: 576

Publicação: 2019 | Abril

Edição: # 160

Género: Poesia

Colecção: azulcobalto # 066

 

PVP: 20 €

EDIÇÃO NUMERADA E ASSINADA PELO AUTOR (20 exemplares): 40 €

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