Até Hoje. Memórias de Cão

Álamo Oliveira

Um grande livro, um dos mais belos livros até agora escritos sobre a guerra colonial portuguesa, que traduz de forma extremamente segura não só a amargura de uma permanência no tema, mas, também, de uma sensibilidade demasiado verdadeira para poder estar imune ao sofrimento e à própria verdade. Se nos interessamos pelo tema
(como não é o meu caso, insensível que sou a esta temática, embora creia que tem importância), a leitura de Até Hoje, de Álamo Oliveira merece a nossa melhor atenção. Se não nos interessamos grandemente pelo tema (como é o meu caso), vale a pena ter em Até Hoje a imagem de um grande livro, de um texto onde a literatura tem um nome a defender e a crescer. As Memórias de Cão, subtítulo do livro, merecem ser transformadas em outra coisa, no entanto. Os anjos devem voar, se voam devem escrever como se escrevem algumas das melhores páginas deste livro.
A literatura não é só pose, artifício, glória de escrever. É também pose de escrever assim, artifício para poder mostrar isto, glória de poder escrever como um anjo. Enfim.

Francisco José Viegas (do Prefácio – texto publicado originalmente no jornal Semanário, edição de 9 de Julho 1988)

 

Excerto

«(…) Fernando apagou o candeeiro e o quarto embrulhou-se com a claridade do falso luar, que entrava pela janela e pousava sobre os brancos (as paredes, os lençóis) azulando-os. João acendeu um cigarro. A chama alterou o luar. Durante alguns minutos, as baforadas de fumo foram o único som descritível. «Vens para aqui ou… vou para aí?» E João, «Como quiseres…» Fernando levantou-se. Estão agora deitados, muito juntos, os corpos electrizados, heras que trepam, se agarram, se colam. Vão as mãos em viagem, navios no sangue. As bocas encontram-se com uma fome de anos. A de Fernando desgruda, escorrega pelo pescoço, parando nos mamilos, amoras que se trincam, sem mel. Um rio acaba de nascer. A língua desliza bem pelo meio do peito, desagua no umbigo e aí se espalha, lago ou delta em forma de flor. As cuecas de João saltam agora, vão pelo ar sem destino. Caíram junto da janela, enquanto o lençol desmaiava e os corpos se fundiam sob uma chuva de suspiros silvestres. No quarto n.º 13 da velha pensão do Rossio, o amor ficara do tamanho da cidade e coubera inteiro numa pequena cama de ferro, pintada de esmalte branco. Não há sinais de proibição códigos de viagem, espartilhos no coração. Os seus olhos brilham e dormem.
Acordaram nus e descobertos, abraçados ainda. Saudaram-se com um beijo longo. Tomaram duche, vestiram-se e saíram. Lisboa está outra vez coberta de sol. (…)»

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-8828-46-0

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 176

Ano: 2018 | Outubro

Nº Edição: 145

Colecção: Obras de Álamo Oliveira # 004

Género: Ficção | Romance

PVP: 15 €

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