Aeroplano de Asas Partidas

Luís Serra

Neste antologia de Luís Serra (Évora, 1970), reúnem-se poemas de Brinquedos de Latão e Sarampo, Tudo Voltaire ao Cabaré, Suspeita de Inverno, Poema-Cartaz Saloon Saltar pela Janela Cair como um Pato.

 

Excerto

Uma tarde quente de chuva
Uma mosca no resto doce do prato de veneno
um rumo porno e cor de corrida
um motor imóvel a dar um baile
uma vontade de foder.

 

torradeira

contempla o campo seco de Belzebu
deitada de bruços
sobre o rectângulo de tijoleiras
das piscinas azuis municipais

nítido nu

Nota de leitura

UM LIVRO QUE ALARGA HORIZONTES NA POESIA PORTUGUESA ACTUAL

«É bom saber que há vias fecundas e interessantes na poesia publicada por cá que escapam às cartografias que, mais ou menos informalmente, vão sendo traçadas. Este livrinho de um autor – Luís Serra – que, tanto quanto é possível saber, faz aqui a sua primeira aparição, nesta colecção chamada “Literatralhas Nobelizáveis”, de uma editora chamada Apenas Livros, oferece-se a uma leitura que apreenda a sua relativa novidade (ou, melhor dizendo, o uso de certos recursos que não estão hoje na ordem do dia), a sua atitude pouco respeitosa relativamente aos protocolos mais comuns da poesia actual. Antes de mais, importa dizer que estamos perante uma poesia que recusa a lógica discursiva. Todo o seu trabalho insiste noutro lado: nos jogos de sentido, nas ligações inusitadas, nos sentidos imagéticos que explodem por concentração vocabular e através da exploração de absurdos semânticos. É bem visível aquilo que a poesia de Luís Serra deve à imagem surrealista, mais do que ao surrealismo em geral. Eis um poema que se chama ‘Inverno’: “Improviso uma época balnear;/ línguas/ estrangeiras marcam encontros lúbricos.” E outro, baseado num processo de enumeração: “Uma mosca no resto doce do prato de veneno/ um rumo porno e cor de corrida/ um motor imóvel a dar um baile/ uma vontade de foder.” Veja-se como esta poesia, mesmo na enumeração, não tem nada de descritivo (e, por conseguinte, também nada de confessional: ela desvia-se, aliás, da asserção subjectiva, não há uma única ocorrência do Eu). Toda a sua força está na instauração de sentido, na abertura de horizontes insuspeitados: “Formigas de asas em revoada: concerto para enforcados.”

[António Guerreiro, Expresso, 4 de Julho de 2009, a propósito de Brinquedos de Latão e Sarampo]

 

Luís Serra é o nosso mais fino rapsodo quando toca a encher a mais curta distância de tumulto, surpresa e visão. Num esforço por natureza antológico, a miudeza dos seus versos endromina sumptuosos desastres numa página e na do lado requebra-se na mais sincera vénia ao haiku. Mas se o faz, guarda a devida distância, sem ir a correr espetar o seu galho num vaso a ver se passa por um bonsai. (…) É essa a arma de escolha de Serra, e raramente nos sabe a mero artifício, a um disparo de pólvora seca. Se nos pusermos arranjar-lhe parentes, não é difícil notar a proximidade com os instintos mágicos revelados nas greguerias do virtuosíssimo e tão prolífico Ramón Gómez de la Serna. (…) Numa poesia assim, cheia de cálculo e graça, uma que deixa a milhas os nossos melosos do zen, Serra sabe fechar a delicadeza num manicómio, capturar os retratos do mundo no “espelho turvo da feira”.

[Diogo Vaz Pinto, jornal i, 13 de Fevereiro de 2016, republicado no blogue O Melhor Amigo/Cadernos do Subterrâneo]

 

 

Ficha Técnica

Género: Poesia
Ano: 2016
Colecção: azulcobalto 33
Número de edição: 074
ISBN: 978-989-8592-78-1
Dimensões: 11×15 cm
Nº de páginas: 80
PVP: 10 €

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