A Paixão do Jardineiro / Neo, Três Painéis de Apocalipse

Jean Pierre Sarrazac

Traduções de Isabel Lopes.

Parceria da Companhia das Ilhas com o Teatro da Rainha.

 

As peças aqui editadas são experiências dramatúrgicas e tentativas de formas dramáticas contemporâneas, realizadas no seu estaleiro imaginário, isto é, com muito teatro nos olhos, de lê-lo, fazê-lo, escrevê-lo, pensá-lo e vê-lo – Sarrazac é contemporâneo de Strehler, Bergman (assistiu a ensaios no Dramaten) Vincent, Chéreau, Alain Françon, Vitez e sobretudo Jacques Lassalle, seu grande amigo. O seu teatro é devedor da sua escrita como teórico e com os seus ensaios faz corpo. O futuro do drama, Teatros íntimos, Teoria do drama moderno e contemporâneo e recentemente Strindberg o Impessoal, constituem um corpus teórico único acerca do teatro moderno e contemporâneo.
A sua Teoria é o equivalente hoje da Poética de Aristóteles e abre perspectivas às escritas dramáticas contemporâneas, ao seu coro polifónico, como gosta de referir.

Fernando Mora Ramos, encenador

 

 

 

Excerto

O JARDINEIRO:

Ela chamava-me o Tolo… Só quando estávamos sozinhos. Quando não estava ninguém a ouvir. «O Tolo volta uma destas noites para tratar dos meus arbustos?» «O Tolo tem sede?»… Eu também tinha encontrado um nome para ela. «A velha senhora simpática». Eu curvava-me sobre as floreiras dela ‒ jardins da Babilónia, dizia ela ‒ e ela, ela ficava ao meu lado. Direita como um estaca. Fresca. Às vezes vinha-me a vontade de a plantar na terra. Ali. Sobretudo quando ela tinha aquele vestido… O vestido yuyuyu! Com aquele vestido parecia uma rapariguinha. Ela ficava ali, a ver-me trabalhar. Contente. Não se preocupava mais. Devia ficar a pensar naquelas flores todas que não iam tardar. Às vezes, quando levantava a cabeça, via passar uma nuvem nos olhos da velha senhora simpática. Era quando estava a pensar se ainda voltaria a ver florir o seu terraço ‒ os seus jardins da Babilónia, dizia ela. Setenta e cinco anos. E eu vinte. Terra de urze. Não há melhor. E de graça! De graça pois, de graça! É natural, a senhora é simpática comigo. Não adianta discutir. Não vale a pena teimar. Bolbos de tulipas, amores-perfeitos, miosótis. De graça, pois se eu não os pago. Diz-me aquilo que quer e eu faço-lhe a vontade.
É natural. O que não quer dizer que em certos dias não me apetecesse bater-lhe. Quando ela embirrava, por exemplo, quando queria pôr uma rosa trepadeira onde bate o sol do meio-dia. Não era fácil fazê-la perceber. Quando não se dá ouvidos à gente do ofício!

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-9007-00-0

Colecção: azulcobalto | teatro #023 | série mundo #002

Dimensões: 14×22cm

Nº páginas: 112

Ano: 2019 | Novembro

Nº Edição: 189

azulcobalto | teatro 029 – série mundo 004

Género: Teatro

PVP: 15 €

 

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