A Lição do Sonâmbulo

Frederico Pedreira

No prefácio a um livro curioso da sua autoria, José Rodrigues Miguéis escreve: “até que ponto pode um escritor falar das suas experiências pessoais, sem incorrer na pecha de subjectivismo e sem ser indiscreto a respeito de si próprio? Será possível, nesta época e num meio como o nosso, avesso por tradição e preconceito à literatura de confissões, que tem enriquecido e ajudado a esclarecer tantas outras culturas, usar da franqueza de um Rosseau, de um Stendhal, de uma Bashkírtseva, para não dizer já de um De Quincey ou Baudelaire?” A época a que Rodrigues Miguéis se refere podia também ser a nossa. O problema da confissão (se é realmente isso o que está em causa) mantém-se e será sempre um dos aperitivos preferidos da teoria da literatura. Ainda assim, talvez se insurja outro problema maior nos nossos tempos: a ficção deslumbrada consigo mesma, a ficção como conceito saturado, enquanto via profissionalizante, livre-trânsito do bom gosto, imitação da vida explicada como quem junta dois mais dois, sendo que o caso não se dá apenas em literatura. Mas voltando a esta: talvez desta vez o autor se tenha cansado de escrever “José disse” ou “Joaquina disse” quando foi ele que disse e mais ninguém. Talvez nestes tempos de passamanes não valha muito a pena embelezar um caminho esburacado, quando apesar de tudo são esses buracos que ainda lhe dão um nome.

Excerto

Não me recordo de ter sido verdadeiramente infeliz em casa dos meus avós. Julgo que essas temporadas da infância e do início da adolescência não seriam susceptíveis de infelicidade, até porque era quase sempre Verão e eu era então muito novo. Nesses meses, eu vivia satisfeito, e digo-o sem as habituais reticências a que tantas vezes nos obriga o cinismo da idade adulta, e uma parte substancial dessa satisfação era resultante de um acesso quase ilimitado durante o dia ao quintal da casa dos meus avós, onde passava horas intermináveis a jogar futebol, a correr ou a praticar umas lutas com o meu irmão que deviam às mais rudes noções do karaté, do sumo e da luta livre.

Nota de leitura

Ficha Técnica

ISBN: 978-989-9007-07-9

Dimensões: 14x22cm

Ano: 2020 | Abril

Edição: # 194

Género: Ficção (romance)

Colecção: azulcobalto # 085

Nº páginas: 164

PVP: 15 €

Autor