2019

O ANO EDITORIAL DA COMPANHIA DAS ILHAS

 

Em 2019 a Companhia das Ilhas prevê publicar mais de 40 títulos. Além da continuação da Obra Completa de Vitorino Nemésio (mais 4 volumes, edição conjunta com a Imprensa Nacional), o Catálogo da Companhia incluirá importantes nomes da literatura portuguesa: Inês Lourenço (com novas micro estórias), Paulo da Costa Domingos e Rui Baião (novos originais e poesia reunida), Ramiro S. Osório (novos originais reunidos), Carlos Alberto Machado (livro de contos e novo romance), Urbano Bettencourt (selecção poética), José Amaro Dionísio (reunião de toda a sua obra), a prosa de Manuel João Gomes e nova obra de Jorge Fazenda Lourenço (sobre Sena), entre outros a destacar em devido tempo.

No primeiro trimestre do ano, a Companhia das Ilhas publicará 4 livros de poesia: Classico, de José Ricardo Nunes, que assim regressa à Companhia das Ilhas, depois de Confissões, livro de contos de 2013 e de Três Oito e Setenta e Cinco, poesia, de 2015; também de volta à editora (publicou com a Companhia das Ilhas o livro A Ração da Noite, em 2016), a poeta Catarina Costa, com Essas Alegrias Violentas; mais um voltar a casa: uma das revelações poéticas da Companhia das Ilhas (O Fardo do Homem Branco, 2103, La Mariée Mise À Nu, 2017): Madalena de Castro Campos, com A Gun in the Garland; FS Hill publica pela primeira um livro seu na Companhia das Ilhas (mas integrou a antologia O Desejado, Robot Bimby, organização de Jorge Corvo Branco): Animal Vegetal; Alexandre Sarrazola regressa com a sua singularíssima prosa (depois de Kinderszenen – 2012 – e Smalloch – 2018): Triq Gatto Murina.

O segundo volume da Obra Completa de Vitorino Nemésio – que integra Amor de Nunca Mais (teatro), e os contos de Paço do Milhafre e do O Mistério do Paço do Milhafre – vai em Janeiro para as livrarias (a edição é de Dezembro de 2018). O terceiro volume, que reúne Sob os Signos de Agora, Conhecimento de Poesia e Elogio Histórico de Júlio Dantas, deverá sair no final de Março.

 

OS LIVROS

 

A Gun in the Garland: MADALENA DE CASTRO CAMPOS

Um livro que prossegue uma interrogação, iniciada nos livros anteriores, sobre a dupla natureza da escrita e da condição feminina: escrever e ser mulher como duas faces de uma mesma realidade tão implicada como incompatível. A agressividade e a ironia surgem como uma resposta. A resposta possível de quem duvida de todas as respostas.

 

Amor de Nunca Mais / Paço do Milhafre / O Mistério do Paço do Milhafre: VITORINO NEMÉSIO

Publicado o primeiro volume da série de Poesia da nova edição da Obra Completa de Vitorino Nemésio – Poesia (1916-1940) –, segue-se agora o primeiro da série Teatro e Ficção – Amor de Nunca Mais, teatro (apresentação de Chloé Pereira), e Paço do Milhafre e O Mistério do Paço do Milhafre, contos (apresentação de Urbano Bettencourt) –, onde o leitor encontrará, pela primeira vez e a beirar um século sobre a sua composição, a única peça de teatro escrita por Nemésio, em 1920. Ao mesmo tempo, o leitor poderá acompanhar a evolução da escrita do autor no género conto, seguindo o processo de metamorfose ocorrido entre Paço do Milhafre (1924) e O Mistério do Paço do Milhafre (1949), obras maiores no contexto da ficção do autor e da literatura portuguesa do século XX, mas praticamente esquecidas do grande público.

 

Animal Vegetal: FS HILL

Este Animal Vegetal, o quarto publicado por FS Hill, é, segundo ele, «um estado transitório do próprio autor, estado em que este se reconhece como não sendo carne nem alface, e, no entanto, continua a levar-se à boca, decompondo-se a cada garfada. É também, por isso, um livro póstumo de si.» Assim mesmo.

 

Há um gato que repousa em cima da garagem

do vizinho

Há um vizinho que repousa sobre o colo

da mulher

Há uma mulher que chora porque não repousa

há várias noites

Eu sou as lágrimas dessa mulher

Sou também o sexo flácido do vizinho

ainda húmido

Sou a sombra do gato imaginado à janela

Na verdade só queria ser ventre

e agitar as árvores

 

Classico: JOSÉ RICARDO NUNES

Poder-se-á dizer que é um livro, como tantos outros, reflecte sobre os modos como lidamos com o amor «(…) o amor,/ a vida, o desgarrado mundo,/ a vida perdida, a vida ainda.», a vida e a morte, embora o poeta nos diga que não quer falar da morte, mesmo que seja a dos outros, como a de Chet Baker, caído de uma janela dum hotel em Amesterdão: «Não pretendia falar da morte dele./ Não queria de todo falar acerca da morte./ O meu tema era a embocadura./ Porém, falar doutro assunto amarga./ (…) Talvez a morte seja apenas/ esperança alimentada até doer./ Há noites em que o oiço cantar Almost Blue/ e quase percebo porquê.» Mas o que importa mesmo em JRN é a sua capacidade de ironia, o jeito de saber falar e ao mesmo tempo evitar falar sobre o que quer. Mas ele já nos tinha avisado, com Pasolini (epígrafe de abertura): «Solo l’amare, solo il conoscere,/ conta, non l’aver/ amato, non l’aver conosciuto.»

Classico reúne poemas escritos entre 2015 e 2018.

 

Essas Alegrias Violentas: CATARINA COSTA

Essas alegrias violentas é um lugar onde a alegria contém em si o gérmen de uma violência que não mata mas conflagra. Aqueles que buscam essa alegria intensa não querem perder o matiz de nenhuma conflagração.

 

CAFÉ MÜLLER

Nunca dançámos, nunca nos tocámos,

nunca nos perseguimos ou olhámos

mais do que o bastante para bordear a recusa

e porém estamos ali, espectros no Café Müller

intocados pelos braços longos dos homens e mulheres tristes,

numa dança infernal entre cadeiras que caem desamparadas,

elas próprias a lembrança dos corpos

que nelas um dia se sentaram, distraidamente,

sem que se apercebessem da veemência dos instantes

que passavam juntos, sentados à mesa

estamos ali, espíritos num movimento em queda

sem a humanidade dos que dançam em redor.

 

Sob os Signos de Agora / Conhecimento de Poesia / Elogio Histórico de Júlio Dantas: VITORINO NEMÉSIO

Com este volume ficarão disponíveis três títulos que, sendo fundamentais no campo do ensaio literário português do século XX, acabaram por ser remetidos para o esquecimento. Nestes livros, Nemésio desenvolveu um pensamento crítico muito próprio e fundamentado sobre o fenómeno literário em geral, e o da poesia em particular, e, com o discurso sobre Júlio Dantas (a quem sucedeu na cadeira da Academia das Ciências), ajudou a repensar, de um modo objectivo e descomprometido, a literatura e os seus agentes numa relação directa com os respectivos contextos históricos e sociais.

 

Triq Gatto Murina: ALEXANDRE SARRAZOLA

Os livros de Alexandre Sarrazola pertencem a uma categoria singularíssima ‒ aquela que cria o seu próprio lugar, a sua própria linguagem. Coisa rara na narrativa ficcional portuguesa contemporânea. «Por vezes a escrita de Sarrazola torna-se demasiado densa, excessivamente barroca, quase opaca, mas é essa a sua natureza. Ou nos deixamos ficar com ela, garimpando brilhos, ou seguimos adiante», escreveu certa vez um crítico, a propósito de Kinderszenen.

«Lá em baixo ainda a mesma rua estreita, o muro alto, a alvura da madressilva e a hera enrolada nos portões alabardados. Debruçou-se o mais que podia, empinando os pés descalços na laje quente da exígua plataforma – mas nada de buganvília, gelosias nem neófitos guerreiros guiados por mulheres de dorsos torcidos. Se se deixasse debruçar demasiado quem o levaria pela mão céu abaixo?»

  

OS AUTORES

 

Alexandre Sarrazola

Coimbra, 1970.

Vive em Lisboa. É autor dos livros de poesia Thaumatrope (Averno, 2007), View-Master (Língua Morta, 2013), Fade Out (menção honrosa do Prémio Vasco Graça Moura da Imprensa Nacional Casa da Moeda, Colecção Plural, 2016) e de ficção Neófitos (com fotografias de Mafalda Capela; Averno, 2014), Um quarto na Pensão Beziehungswahn (em co-autoria com Mafalda Capela [fotografia]; Homem do Saco, 2014), Kinderszenen (Companhia das Ilhas, 2015), Tales For a Mermaid Queen (Hierro Lopes, 2018) e Smalloch (Companhia das Ilhas, 2018). Colaborou com a RDP-Antena 2 em teatro radiofónico (Domingo), com a companhia Entrés de Jeux-Usina e com o Teatro Nacional de São João (Avercamp). Publicou as peças Domingo (edições moscaMorta, 2012), Retratinho de Guerra Junqueiro (edições moscaMorta, 2013) e adaptou para o palco O Som e a Fúria de William Faulkner (teatromosca, 2015). Desde 2006 publica regularmente ficção e poesia em antologias colectivas portuguesas e estrangeiras (Assírio e Alvim, Averno, Nova Delphi, Jornal Público, Língua Morta, Bíblia, Cão Celeste, 3X3 Marginal e Cidade Nua, Quarto de Jade, Eufeme, Círculo de Poesía [México]).

 

Catarina Costa

Coimbra, 1985.

Publicou os livros Marcas de Urze (Cosmorama, 2008), Dos Espaços Confinados (Deriva, 2013)Síndrome de Estocolmo (Textura, 2014), Chiaroscuro (Douda Correria, 2016), A Ração da Noite (Companhia das Ilhas, 2016) e Analema (Douda Correria, 2017).

 

FS Hill

Em 2013, foi convidado a conceber a matéria poética para a perfomance/instalação AM.OR de Carlota Lagido, e para RO.GER, em 2014. Nesse mesmo ano, viu o seu primeiro livro – Livro das Coisas Breves – ser publicado pela editora Medula, de Coimbra, e foi um dos autores do Poemanifesto da editora Flan de Tal.

Entretanto, tem publicado nas revistas Flanzine e Nicotina Zine e participa, em 2015, em dois livros colectivos: 70 poemas para Adorno e O Desejado. Robot Bimby (Companhia das Ilhas, 2015). Em 2016, é editado o seu segundo livro de poesia, pela não (edições): Fisioterapia. O terceiro, Gesso, é uma edição DSO.

 

José Ricardo Nunes

Lisboa, 1964.

Licenciado em Direito e Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas.

Reside em Caldas da Rainha.

Últimos livros de poesia publicados:

Compositores do Período Barroco (Deriva, 2013);

Andar a Par (Tinta-da-China, 2015);

Três Oito e Setenta e Cinco (Companhia das Ilhas, 2015).

 

Madalena de Castro Campos

Lisboa, 1984.

Fez, sem muito empenho, uma licenciatura em filosofia, e depois uma outra em arquitectura paisagista. Trabalha em Edimburgo, Escócia, na área do design de jardins. Editou na Companhia das Ilhas O fardo do homem branco (o seu primeiro livro de poesia, em 2013) e La mariée mise à nu (2017).

 

Vitorino Nemésio

Praia da Vitória, 1901-Lisboa, 1978.

Fez na Praia da Vitória os estudos primários e os secundários em Angra do Heroísmo e na Horta. Em 1921 matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e, mais tarde, no curso de História e Geografia da Faculdade de Letras da mesma Universidade, exercendo ao mesmo tempo as funções de revisor da Imprensa da Universidade. Em 1924, matriculou-se em Filologia Românica; em 1930, transferiu-se para a Faculdade de Letras de Lisboa onde, no ano seguinte, concluída a Licenciatura, foi contratado para leccionar Literatura Italiana como professor auxiliar.

Doutorado em Letras pela Universidade de Lisboa com a tese A Mocidade de Herculano até à volta do exílio, foi charge de cours na Universidade de Montpellier, passando, anos depois, para a Universidade de Bruxelas onde foi maître de conférencesprofesseur agréé. Em 1939, chegou a professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Leccionou em diversas universidades brasileiras (Bahia, Ceará, Rio de Janeiro).

Eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1963), foi feito doutor honoris causa pela Universidade de Montpellier (1965) recebendo, no mesmo ano, o Prémio Nacional de Literatura pelo conjunto da sua obra.

Em 1969, começou a apresentar na RTP a série de programas Se bem me lembro. A 12 de Dezembro de 1971, o Professor Vitorino Nemésio proferiu a sua última lição na Faculdade de Letras de Lisboa, e em 1974 recebeu o Prémio Montaigne, da Fundação Freiherr von Stein/Friedrich von Schiller, de Hamburgo. Entretanto (1973 a 1977), compôs uma série de poemas de carácter erótico dedicados ao seu serôdio e derradeiro amor, Margarida Victória, Marquesa de Jácome Correia, publicados postumamente sob o título Caderno de Caligraphia e Outros Poemas para Marga.

A obra literária de Nemésio distribui-se pela poesia, pela ficção, pelo ensaio e pela crónica, géneros em que se notabilizou: o romance Mau Tempo no Canal é geralmente considerado como um dos grandes romances da literatura portuguesa, ao lado de Os Maias, de Eça de Queiroz. Tendo-se estreado como autor, aos quinze anos, com o volume de poesia Canto Matinal, Nemésio foi autor de alguns dos livros mais marcantes da literatura portuguesa do século XX, de que se poderá salientar O Bicho Harmonioso, Eu, Comovido a Oeste, Mau Tempo no Canal, Festa Redonda, O Verbo e a Morte, Limite de Idade e Era do Átomo Crise do Homem.

Figura de projecção nacional e internacional, com muitas das suas obras publicadas em outras línguas, Vitorino Nemésio sempre assumiu, como homem e como artista, as suas origens açorianas, sendo sua a definição do conceito de “açorianidade”.

A Companhia das Ilhas e a Imprensa Nacional iniciaram em Setembro de 2018 a publicação da sua Obra Completa, com direcção literária de Luiz Fagundes Duarte.